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Worldcon – Parte IV

O AUTOR MAIS ESPERADO

Num ano em que a discussão por uma FC mais internacional dominou, o nome mais esperado na Convenção Mundial de Ficção Científica sem dúvida foi o nigeriano Oghenechovwe Donald Ekpeki. Ele foi indicado ao Hugo em duas categorias – Melhor Noveleta e Melhor Editor, o que já seria uma façanha. Mas a trajetória dele é ainda mais complicada. Ele vive na Nigéria, e recentemente passou por uma grande dificuldade: vários sistemas de pagamentos e transações bancárias internacionais não operam no país por causa da corrupção e do grande número de fraudes. Pra vender os livros dele no exterior, ele usa um esquema tão complicado, que um certo gigante das vendas de livros na internet ficou desconfiado, cancelou a conta dele, e não pagou o que devia por livros já vendidos! A gritaria internacional foi grande, vários autores intercederam, incluindo a SFWA, Associação de Escritores de Fantasia e Ficção Científica. No fim foi tudo normalizado, mas só depois de muito sofrimento. 

Este ano, antes das indicações ao Hugo, ele ganhou o Nebula pela noveleta “O2 Arena”, publicada na revista Galaxy’s Edge. Como editor, publicou a antologia de autores africanos Dominion em 2020, e ano passado, uma antologia dos melhores contos de FC e Fantasia de autores africanos. Enfrentou até preconceito por isso, porque um certo blog de FC argumentou que ele não mereceria porque tinha “apenas” juntado contos publicados em outros lugares, sem participação editorial efetiva. Como se publicar um livro reunindo autores de vários países na África fosse simples.

Aí começou a novela da viagem aos Estados Unidos. Conseguiu em tempo recorde arrecadar através de crowdfunding o que precisava para a passagem e estadia, faltava só o visto de entrada. Que o consulado americano em Lagos recusou sumariamente numa entrevista de menos de um minuto, sem sequer deixar que ele mostrasse o convite, as indicações ao prêmio, as cartas de referência, etc. Na justificativa, explicaram que não viram garantia de que ele voltaria à Nigéria, ou seja, desconfiaram que fosse ficar ilegalmente naquele paraíso capitalista. 

Gary Wolfe, Maurice Broaddus, Jonathan Strahan, Oghenechovwe Donald Ekpeki, Sheree Renee Thomas

A gritaria foi maior ainda. Participantes da Convenção encheram de mensagens e telefonemas seus senadores pedindo que intercedessem junto ao Departamento de Estado. O Consulado americano em Lagos foi inundado de mensagens de protesto, e emitiu uma outra explicação tão estapafúrdia quanto a primeira. Mas a gritaria funcionou: na segunda, dia 29/08, o consulado chamou Ekpeki de volta. Deu o visto na terça (a convenção começava na quinta, 01/09). A essa altura, ele tinha perdido o voo original, e pegou um voo Lagos-Addis Abeba-Dublin-Chicago – três continentes!!! A bagagem, é claro, se extraviou. Mas na sexta, finalmente, ele estava lá – sonado, direto do aeroporto para uma leitura de um novo conto e um bate-papo. Falou de como lia o que conseguia na Nigéria, já que os livros que chegavam lá eram o que sobrava de encalhes de edições britânicas. E defendeu o papel que a literatura especulativa pode ter nas transformações sociais e no combate à desigualdade. 

Na cerimônia de premiação, acabou não levando. Mas fez história assim mesmo.

Epílogo 1: Nunca houve Worldcon em país africano. Uganda é candidata a sediar em 2028. É problemático por causa das leis que consideram crime relações homossexuais no país, o que pode dar até prisão perpétua, e que deixaria muita gente de fora. Mas adivinha? A delegação de Uganda não pôde viajar e fazer a sua apresentação. Estavam lá os candidatos Glasgow (2024), Seattle (2025), Cairo (2026), e Tel Aviv (2027). Os representantes de Uganda sequer conseguiram agendar uma entrevista para o visto no consulado americano em Kampala.

Epílogo 2: Acabou? Não. Terminada a convenção, organizadores e o próprio Ekpeki revelaram que ele recebeu ameaças de morte (junto com o autor Patrick Tomlinson, alvo frequente da extrema-direita americana). As autoridades haviam sido alertadas, e felizmente nada aconteceu.

No próximo capítulo: A grande noite do Hugo

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