Literatura para adolescente está muito violenta?

Artigo no prestigiado Wall Street Journal escrito pela critica litarária Meghan Cox Gurdon criou uma polêmica no mundo YA (Young Adult), ou seja, livro para adolescentes entre 13 e 18 anos. Gurdon afirma que os livros destinados a essa faixa etária estão muito violentos e tratam de assuntos muito pesados para os jovens. Nós aqui do CdL adoramos YA e, junto com Maureen Johnson do Guardian, não temos como concordar com Gurdon.

Minha primeira reação ao ler o artigo foi pensar que algo assim só poderia mesmo ser publicado no EUA, só pode ter vindo de um lugar onde alguém como Sarah Palin ou George Bush tem chances reais de vitória eleitoral. Onde uma comissão de pais é capaz de fazer tanta pressão pela moral e os bons costumes que fazem a MTV cancelar a versão americana de “Skin”, não que ela fosse páreo para o original inglês, mas não foi isso que a tirou do ar. A quantidade de regras e diretrizes morais que estão implícitas no artigo de Gurdon é típico de um país que acha que foi ungido por Deus e deve governar o mundo. É de uma prepotência sem tamanho. A cada linha que eu lia ficava mais chocada com o que estava lendo, ela parecia mais um personagem de um livro de distópico. Vai dizer que alguém determinando o que se deve ou não ler não parece algo saído da cabeça dos Especiais ou do presidente Snow?

A minha segunda reação foi tentar lembrar o que eu li entre os meus 13 e 18 anos e alguns títulos vieram a cabeça. Como já se passou um tanto de anos desde a minha adolescência esses foram os títulos que mais me marcaram. Lembrei das aventuras de Berenice do João Carlos Marinho, “Sangue Fresco” em especial, onde crianças são sequestradas para serem sugadas. Lembrei da “Droga da Obediência” onde mais uma vez crianças são usadas como cobaias. “Rio Liberdade” onde um órfão de pais que sobreviveram a tortura na ditadura militar busca sua liberdade. Mas o primeiro livro que me veio a cabeça foi o clássico absoluto “Capitães da Areia” sobre meninos de rua em Salvador e sua descoberta do mundo, um mundo onde eles são invisíveis. Foram livros importantes na minha formação como leitora e como pessoa. Tinha violência? Claro que sim, assim como existe violência no mundo em que vivemos, faz parte do nosso crescimento compreender isso e a literatura ajuda.

Gurdon diz que os temas dos livros estão muito dark, falam de violência sexual, homofobia, violência domestica. Quando li “Jogos Vorazes” me assustei com o tema, afinal são crianças se matando. Não é nada novo, eu li “O Senhor das Moscas”, mas não é essa uma das funções da arte? Criar um sentimento de estranheza no seu mundo para que você consiga ter uma visão mais ampla, para que pense e reflita sobre as mais diversas questões. Vai dizer que a história de Katniss não fez os leitores pensarem sobre ditaduras e a importância da democracia? A primeira vez que lembro ter pensado em corrupção foi depois de ler, aos nove anos, “A História dos Rabos Presos”, da Ruth Rocha, essa é a função da arte. Se os livros estão falando mais sobre pedofilia não é porque o mundo ficou mais depravado, é porque esse crime passou a ser combatido ao invés de escondido. O fato da literatura está jogando luz em certos temas não é um problema, é uma virtude. Se jovens estão lendo e gostando desses livros é porque se relacionam com eles.

Os livros estão dark? Stephanie Meyer conseguiu pegar um dos grandes e mais cruéis monstros da literatura e transformá-lo em um príncipe encantado. J.K. Rowling conseguiu transmitir em sua saga mágica o clima sombrio do mundo que se seguiu aos ataques de 11 de setembro. Ou ninguém reparou que os livros vão ficando mais pesados e que personagens queridos morrem na mesma medida que a guerra contra o terror foi crescendo? Gurdon reclama da linguagem usada. Diz que têm muito palavrões, eu adoraria conhecer um adolescente que não os usa regularmente. É isso mesmo, ela não só quer ditar o tema dos livros como a sua forma.

Você não quer que seus filhos leiam algo? Isso faz parte da educação que cada pai quer dar para o seu filho. Se você acha que os livros estão violentos, não compre esses livros. Assim como se você não quer que seu filho jogue certo jogo ou veja certos filmes. A mais escandalosa questão do artigo de Gurdon é que ela, habilidosamente, sugere que esses livros não sejam editados, ai está o maior problema. Ninguém pode ditar o que pode ou não ser editado com base em moral e bons costumes. É o primeiro passo para a censura. O governo pode, como no Brasil, dizer que os programas são apropriados para certas idades, mas não pode proibir ninguém de assistir esses programas.

Ela não gosta de YA, isso fica claro, e ela tem todo o direto de não gostar, o problema é que ela acha que porque ela não gosta deles não deveriam existir. Acho que ela deveria ler “1984”, principalmente a parte em que eles falam em como estão reescrevendo os livros e limitando o vocabulário para que em um futuro próximo ninguém consiga se rebelar porque serão incapazes de elaborar essa ideia por falta de vocabulário. Ou reler “Fahrenheit 451”, que ela sugere como um bom livro para meninos, e lembrar que não se queima livros.

Os livros para adolescentes estão mais violentos? Não acho, até porque a comparação com outros tempos é quase impossível, esse público era ignorado. Acho que eles refletem o seu tempo. São populares porque interessam, se interessam é porque esse público se relaciona com essas temáticas. Existem, como em qualquer gênero literário, bons e maus livros, livros que você gosta e os que você não gosta. Graças a Deus temos a opção de escolha, de chegar em frente a uma prateleira de livros e ter a liberdade de escolher usando o nosso livre arbítrio.

3 comentários sobre “Literatura para adolescente está muito violenta?

  1. É um pecado um post tão bom assim não ter nenhum comentário ainda.
    Sua primeira reação foi igual a minha: Só podia vir de uma americana mesmo.
    Eu fiquei com muita raiva do artigo, e queria muito encontrar com a Gurdon pra dizer umas boas verdades pra ela, no melhor brazilian way. Mas enfim, ótimo post, disse tudo que eu penso!
    Bjs

  2. Post maravilhoso.
    Concordo com a sua opinião.
    Acredito que os livros são uma das, ou a melhor, forma de protesto que temos. Um jeito de manifestação de quem escreveu e também de quem leu.
    Como ja disse, concordo plenamente com a sua opinião.

    Bjs, Fran

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