Marian Keyes e a polêmica chick lit

Neste mês de novembro decidimos escrever sobre as escritoras que mais nos influenciam e suas obras. É comum que neste tipo de lista seja dada ênfase aos “clássicos” ou a autoras mais “sérias” mas isso é apenas mais uma faceta do machismo que permeia o universo editorial – e a nossa sociedade como um todo. Livros escritos por mulheres são catalogados frequentemente como “literatura feminina”, como se isso fosse por si só um gênero, o que faz com que escritoras se esforcem muito mais do que seus colegas do sexo masculino para serem consideradas autoras sérias. Se a mesma opta por dar enfoque a temáticas femininas (e por que não dizer feministas?), escrevendo sobre e para mulheres, ou decidir falar de relacionamentos de uma forma bem humorada a possibilidade de ser levada a sério ou até mesmo considerada uma “escritora de verdade” é praticamente nula.

Colocou-se um enorme guarda-chuva cor de rosa em torno deste tipo de literatura – bonitinha, fofinha, de mulherzinha – e criou-se o termo chick lit para designá-la. Em inglês, o nome significa literalmente “literatura de moça”. Muitas autoras englobadas pela categoria como Sophie Kinsella ou Marian Keyes, consideradas por muitos como as rainhas do gênero, já fizeram duras críticas ao termo. Segundo Keyes, chick lit é um termo pejorativo que contribui para a manutenção da desigualdade salarial entre os gêneros, ridicularizando mulheres e tudo o que elas amam.

Considerar a obra de Keyes como algo menor ou puramente comercial é uma redução machista grotesca. A autora irlandesa, que fala abertamente sobre seus problemas de saúde mental, aborda tais temáticas em seus romances, além de muitas outras igualmente graves e relevantes como luto, drogadição ou violência doméstica. Poucos escritores conseguem trabalhar de forma tão empática assuntos tão graves ou equilibrar com tanta maestria a seriedade dos temas com bom humor e leveza.

Keyes começou a escrever na década de 1990 enquanto batalhava contra o alcoolismo e a depressão. Após um período passado na reabilitação ela escreve e publica em 1995 seu primeiro romance, Melancia que conta a história de Claire Walsh, uma mulher de 29 anos que logo após dar à luz a sua filha se vê abandonada pelo marido e obrigada a retornar para a casa dos pais em Dublin. Desde então Keyes já publicou 16 obras de ficção e 5 de não-ficção, incluindo “Salva Pelos Bolos”, um livro de receitas de sobremesas no qual Keyes relata de forma extremamente honesta como o súbito interesse por culinária a ajudou na recuperação de sua última crise depressiva. Seu romance mais recente, Dando um Tempo, foi publicado no Brasil esse ano.

Através de seus romances fofinhos cor de rosa e de suas mulherzinhas fictícias, Marian Keyes ajudou toda uma geração de mulheres a se empoderarem, descobrindo que suas fragilidades não as tornavam menos fortes e legitimando seus sentimentos diante dos abusos aos quais a sociedade patriarcal as submete. E isso não é pouca coisa.

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