O Crime do Cais do Valongo

Fazia tempos que queria ler algo editado pela Malê, em um país onde brancos dominam a cena cultural uma editora que publica negros é mais que importante é primordial. Quando li sobre “O Crime do Cais do Valongo” corri para a livraria para comprar o meu. O livro de Eliana Alves Cruz é tudo que eu esperava que fosse, ou seja, tem um bom caso, tem ótimos personagens e fala bem mais do que sobre investigações criminais.

O morto em questão é o comerciante Bernardo Lourenço Viana, um homem que fez fortuna na região do Valongo com o contrabando de escravos e uma hospedaria próxima ao cais onde chegavam ao Brasil os negros escravizados na África. Bernardo é um comerciante que queria tornar-se mais respeitável ainda mais com a chegada da família Real ao Brasil. Ele compra uma título de Barão, arruma um noiva de uma família tradicional e tenta ascender socialmente por ter dinheiro. É uma história comum no Rio de Janeiro colônia, uma cidade em formação que da noite para o dia passou a abrigar uma corte e tornou-se capital do império português.

O assassinato de Bernardo é desvendado aos poucos mesclando capítulos contados por Nuno, mestiço devedor do comerciante, e Muana, escrava de Bernardo. Nuno fala sobre o assassinato e o assassinado, ele acompanha as investigações com medo de que descubram que ele devia ao morto. Suas colocações mostram como viviam os que habitavam a região do Valongo, a região do cais e bem longe da corte e das riquezas da capital.

É Muana que transforma o livro e dá outro significado ao título. Muana conta sua trajetória de pessoa livre em uma pequena aldeia no interior de Moçambique até sua chegada ao Brasil como escrava. São nesses capítulos, repletos de fé e magia, que vão pintando um retrato bem mais realista do que acontecia em São Sebastião do Rio de Janeiro naquela momento. A crueldade da captura, a viagem nos tumbeiros e a vida escravizada sob a crueldade de senhores. São os capítulos mais impactantes e mostram quão pouco falamos sobre a vida dos escravos, dos cativos que chegaram forçadamente a essas terras e ajudaram a formar quem somos.

“O Crime do Cais do Valongo” é um grande livro, desses que permanecem com você e se quer que mais amigos leiam.

 

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