O Homem do Castelo Alto

Alguns escritores têm o dom de enxergar através da superficie para mostrar a realidade. Philip K. Dick ia além: para ele, a realidade era superficial e duvidosa. Quanto mais certeza temos das coisas, mais perdidos estamos, porque por baixo de uma camada há sempre outra e mais outra e mais outra…

Dick já havia experimentado com o tema de realidades alternativas em diversos contos desde a década de 1950, mas foi em 1962 que isso começou a se cristalizar como o tema central da obra dele, numa sequência impressionante de obras que começa com O Homem do Castelo Alto (Aleph, trad. Fábio Fernandes).

Estamos num mundo em que a Alemanha nazista venceu a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos foram divididos entre a Alemanha e o Japão, que ocupa a Costa Oeste. No meio, nas montanhas rochosas, um escritor de ficção científica imagina uma outra realidade… No livro dentro do livro, são os Aliados que vencem a guerra. Mas mesmo assim, não é exatamente a nossa realidade, é uma terceira opção. Quando finalmente é encontrado em seu refúgio, o escritor diz à personagem principal que o livro que ele escreveu é que mostra a realidade, e que o mundo dominado pelos nazistas é apenas uma ilusão.

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Esse jogo de simulacros aparece de várias formas, em vários níveis dentro da narrativa. Os japoneses que ocupam San Francisco adoram colecionar produtos culturais americanos: relógios de Mickey Mouse, revólveres do velho oeste, tudo autêntico… só que não. Os produtos vendidos por um antiquário são novos, fabricados especialmente para parecerem antigos e legítimos. Um personagem que fabrica esses objetos também tem uma identidade falsa: é um judeu que se disfarça para não ser entregue aos nazistas. Um empresário sueco é um dissidente alemão que quer revelar planos dos nazistas aos japoneses. Um nível em cima do outro, em cima do outro, em cima do outro…

Ao longo da narrativa, várias vezes os personagens consultam o I Ching, o livro-oráculo chinês. E o próprio PKD disse que usou o I Ching para decidir os rumos da história em vários momentos.

PKD deu sequência aos questionamentos da realidade em uma série de livros escritos num num período de produção intensa, entre 1962 e 1964: We Can Build You, Martian Time-Slip, Dr. Bloodmoney, The Simulacra, e Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (Aleph). Todos brilhantes, especialmente o último, que é outra obra-prima. Na verdade o tema continuou central na obra dele, está também no centro de Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? (filmado como Blade Runner) e Um Reflexo na Escuridão (filmado como O Homem Duplo). (Ambos também disponíveis pela Aleph).

O escritor sofria de problemas mentais, exacerbados pelo uso de anfetaminas (para manter o ritmo frenético em que escrevia). Se acreditava vigiado pelo FBI. Nos anos 1970, teve uma visão religiosa/alucinação e mergulhou ainda mais na paranoia. Morreu em 1982, aos 53 anos, meses antes da estreia de Blade Runner.

O Homem do Castelo Alto tem um momento que é inesquecível, uma cena daquelas que você lê, para, volta, e tem que ler de novo e de novo.

A certa altura, um administrador japonês tem um momento de revelação: ele está perdido nesse emaranhado de simulações, e começa a enxergar uma outra San Francisco, uma cidade diferente, sem sinais da ocupação japonesa. É um tour de force, um momento brilhante, em que Dick expressa com perfeição as nossas inseguranças quanto ao ser, quanto à nossa existência num mundo hostil, que não conseguimos entender, e sobre a natureza da realidade e das aparências.

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