O Quinze

Raquel de Queiroz tinha 20 anos quando publicou “O Quinze” em 1930 e tornou-se um fenômeno nacional.  O número do título se refere a grande seca de 1915 que fez tantos nordestinos como Raquel migrarem em busca de condições de sobreviver. O livro transformou Raquel em uma autora conhecida pelo Brasil e sua obra que inclui outros clássicos como “Memorial de Maria Moura” fez com que ela se tornasse a primeira mulher a conseguir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras em 1977.

Raquel era criança quando a grande seca de 1915 abateu o nordeste e sua família migrou para o Rio de Janeiro até que a chuva retornou ao sertão. A experiência marcou a jovem e gerou um dos clássicos da nossa literatura, mais que apenas um livro importante “O Quinze” integra uma série de obras que tem o nordeste, o nordestino e a seca como tema. Raquel divide seu retrato da seca em duas partes, o do sertanejo pobre que se vê expulso do sertão pela seca e que torna-se um retirante e as famílias mais abastadas que fogem da do sol abrasador e sobrevivem com mais conforto na cidade.

Chico Bento, o retirante, perde o emprego na fazenda, a dona manda soltar o gado e fechar a casa, e não vê outra forma de sobreviver a não ser tentar chegar a capital e receber alguma ajuda do governo. Sua longa e difícil caminhada com os filhos e a mulher pelo sertão castigado pelo sol é um retrato duro daquela realidade. Chico começa orgulhoso, com vergonha de pedir ajuda e com esperança de conseguir sustentar a mulher e os filhos. A situação vai se degradando e acompanhamos a fome, a sede e a desesperança em uma marcha infinita e angustiante.

A seca atinge a todos mas afeta as pessoas de forma diferente e é isso que os capítulos de Vicente e Conceição nos mostra. Vicente toma conta da fazenda da família e se recusa a sair do sertão mesmo com a seca. Conceição é professora na cidade e vai ao sertão trazer sua avó para a cidade para que ela não sofra as consequências da seca prolongada. Vicente é um homem do seu tempo e chega até ser rude com a as mulheres que o cercam. Ele e Conceição tem um flerte e é o único momento de romance do livro, mas é algo que parece fadado ao fracasso. Conceição é uma mulher a frente de seu tempo, diz que não quer casar, que anda sozinha na rua, que tem sua independência. Os embates entre os dois é um conflito entre a tradição e a modernidade em relação aos costumes que concernem as mulheres e, infelizmente, tem um quê de atual.

Todas as vezes que leio Raquel de Queiroz me convenço que tenho que lê-la mais e mais. Seus livros foram escritos no século passado, muitos na primeira metade e sempre parece que foram escritos ontem. O vocabulário, a importância da mulher e de sua independência em um mundo essencialmente masculino estão sempre lá como pano de fundo ou tema principal. É sempre uma grande leitura.

 

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