O sol também é uma estrela

Empatia, imigração, pressão familiar, preconceito e o que pode solucionar qualquer problema: amor.

Recebi “O sol também é uma estrela” da equipe da Editora Arqueiro algumas semanas antes dele ser oficialmente lançado. Ao ler as primeiras páginas, sabia que me apaixonaria pelo livro, porque era exatamente o tipo de leitura que adoro: repleta de simbolismo, com temas importantes e um convite à reflexão.  Mas ao virar a última página … digamos que nada me prepararia para como meu peito apertou e como meu cérebro disparou em fazer conexões e encontrar explicações e sentimentos para tudo. Para ser muito franca, isso tudo não aconteceu só ao virar a última página do livro (disse isso para ser mais dramática). A verdade é que a cada capítulo, tudo isso e muito mais entrava em ebulição dentro de mim. Exatamente como deveria acontecer.

Só que falar sobre que tudo que senti, que li e entendi e questionei seria um spoiler gigante. Spoliers não sobre quem fica com quem ou os plot twists que ocorrem. É muito além disso! Então tomei a decisão de que diria na resenha o máximo possível para desabafar, mas o mínimo, para evitar estragar a sua leitura.

“O sol também é uma estrela” foi escrito pela jamaicana Nicola Yoon (autora de “Tudo e todas as coisas”, que vai estrear no cinema esse ano) e é seu segundo livro.

A história é complexa em sua simplicidade: Natasha é jamaicana, filha de imigrantes ilegais, e está para ser deportada dos EUA. Daniel é americano filho de imigrantes coreanos e que está sendo forçado pelos pais – comerciantes – a ingressar em Yale e se tornar médico, mas o que o rapaz quer é ser poeta. Em jogadas do destino – ou seria apenas uma sequência randômica de fatos não-relacionados?  -, os caminhos de Natasha e Daniel se cruzam em um dia determinante para a vida de ambos. E esse encontro muda muito o caminho da vida dos protagonistas assim como a no leitor.

É importante dizer que, com a exceção do epílogo, “O sol também é uma estrela” se passa em um único dia e que essa medida espremida de tempo é essencial para a narrativa da história. O tempo está acabando para Natasha lutar para permanecer no país e para Daniel fazer uma escolha que definirá seu futuro. Quantas vezes não sentimos o tic-tac do relógio nos pressionando a tomar decisões? E quantas vezes isso não gera um “mas e se fosse diferente” em nossa mente? Pois é … impossível não se identificar.

A forma do livro também é essencial para a eficácia de sua narrativa. Ele é dividido em capítulos que alternam o ponto de vista entre Daniel, Natasha e as pessoas e assuntos que cruzam seus caminhos. Por exemplo: um motorista quase atropela uma personagem. No capítulo seguinte a essa cena, entendemos as razões para o motorista ter avançado o sinal, o que ele está passando, o que teme e o que vai fazer. A razão disso é um dos temas abordados no livro: as coisas não acontecem por uma razão. Elas simplesmente acontecem.

Será?

Já notou que as vezes reclamamos com alguém no trânsito ou na fila do mercado ou em qualquer lugar, mas nunca paramos para pensar o porquê daquela pessoa agir como agiu? Essa sensação de que todos somos conectados – por destino ou coincidência – me faz surtar nas ideias, mas é tão necessária! Nela está a empatia, o não julgar, o olhar para o outro antes de gritar. E “O sol também é uma estrela” aborda isso: empatia não só com o outro fora de nosso núcleo familiar, mas dentro também.

Quantas vezes ficamos zangados com nossos pais porque – segundo a gente -, eles nos “forçam” a escolher profissões mais seguras ou vivem nos dizendo para pensar antes de fazer algo? Porque eles querem o nosso bem, porque eles vivenciaram algo que os feriu e eles querem nos proteger de sentir o mesmo. Mas em nossa própria busca pela felicidade – momentânea ou duradoura -, não enxergamos isso.

“O sol também é uma estrela” aborda pesadamente um tema que está sendo debatido há muito tempo, mas se faz ainda mais necessário no atual momento: a imigração. Imigração e preconceito, porque além do livro tratar da imigração e da imigração ilegal (sim, tem uma diferença), ele também aborda racismo entre minorias. Temos coreanos que não aceitam que seus filhos namorem pessoas não-coreanas. Temos negros que não aceitam que seus filhos namorem pessoas não-negras. Temos coreanos que não querem ser coreanos e jamaicanos que queriam ser americanos. E temos leitores que veem dois personagens – uma mais analítico e científico e o outro mais romântico – se apaixonando rapidamente, sem “instalove”, mas como nosso querido John Green descreveu tão bem: “gradativamente e de repente, de uma hora para outra.”

“O sol também é uma estrela” é o exemplo perfeito de como livros que trazem uma história fictícia podem, ao mesmo tempo e do seu próprio jeito, abordar o que o noticiário traz. De forma lúdica, porém consistente, somos levados a refletir sobre o que importa para nós (fora das páginas) e repensar alguns conceitos pré-formados e que deveriam, de repente, ser mais maleáveis.

Nicola Yoon nos faz apaixonar, questionar e refletir. Nicola Yoon faz isso com personagens que não existem. Nicola Yoon faz isso com palavras e essas palavras tocam a alma. Não sou a mesma antes e depois de ter lido “O sol também é uma estrela” e agradeço a autora, a editora e a Alves Calado que traduziu a obra. Obrigada por serem a ponte entre uma história e o meu coração.

Assim que puder, compre um exemplar de “O sol também é uma estrela” e leia, mas sem pressa. Ignore a correria do “postar a resenha primeiro” ou “tenho que terminar esse porque a fila de leitura é longa”. Leia com tranquilidade e deixe as palavras de Nicola fazerem efeito. A história de Daniel e Natasha se passa em um dia, mas você não precisa devorá-la em um dia. Não é água para quem tem sede. É chá para quem tem bom gosto. Leia, reflita e depois passa aqui para me contar o que achou.

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