Os Últimos Dias em Preto e Branco

É 1970, e os militares que governam o Brasil têm uma ideia para conquistar corações e mentes, principalmente dos jovens atraídos pelas ideologias de esquerda: um novo programa de televisão, em rede nacional, que valorize os valores conservadores. Para isso, recorrem a uma pequena emissora do Rio de Janeiro, a TV Carioca, que luta pra ganhar espaço contra as gigantes Globo e Tupi. Esse é o ponto de partida desse romance em que o jornalista Marcus Veras mistura ficção com realidade nos bastidores da tevê nos Anos de Chumbo.

E de televisão Marcus Veras entende: teve passagens pela TV Globo, Manchete e Educativa, sem contar a vasta experiência no jornalismo impresso. No meio disso tudo, ainda arranjou tempo pra ensinar, e nos idos dos anos 1980 tive o prazer de ser aluno dele.

Com essa experiência toda, Veras monta um elenco de personagens deliciosos nos bastidores da fictícia TV Carioca: tem o executivo ambicioso, o produtor puxa-saco, o coronel linha dura, o diretor bêbado, o velho ator que luta pra esconder sua homossexualidade, a jovem aspirante a atriz, uma cantora da favela, o jovem revolucionário, o jornalista de esquerda a quem cabe a tarefa de redigir o programa encomendado pelos militares… Todos personagens que poderiam ter existido – e que de uma forma ou de outra cruzaram o caminho do autor. Na página do livro no Facebook, Veras revela as inspirações para alguns desses personagens, como o repórter cinematográfico Mário Ferreira.

Marcus Veras (foto: André Arruda)

Também fazem aparições rápidas várias personalidades da vida real da tv dos anos 1970: Lúcia Alves, Renata Fronzi, o maestro Erlon Chaves, Mister Eco, entre outros. Veras também resgata um Rio de Janeiro com redutos que ainda resistem às crises, como a Leiteria MIneira e o notório El Cid, em Copacabana, este uma grande lembrança da minha infância. Alguns locais são fictícios, mas assim como os personagens, provavelmente inspirados em lugares da vida real.

A narrativa é ágil, num ritmo de minissérie de tv, difícil de parar. Mas várias vezes, me vi voltando e relendo parágrafos. É que Veras é capaz de insights preciosos, em frases lapidadas com carinho. Não é a linguagem telegrafada e às vezes superficial da tv, mas obra de alguém que domina não só o assunto, mas também a língua portuguesa.

Acima de tudo, é um livro que chega no momento certo, falando de um passado recente que não podemos esquecer.

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