Por um saber diabólico

“better the devil you know”

Kylie Minogue

 

Diante de práticas políticas que ameaçam, sem pudor, a laicidade do estado, tenho lido manifestos enraivecidos convocando o diabo (satã) como uma espécie de oposição. Imagino que seja possível, no atual estado das coisas, extrair alguma sabedoria dessa imagem.

 

Existe essa expressão, em inglês, desperate times call for desperate measures. Em uma tradução corrida – meio desesperada, talvez – seria algo como “tempos desesperadores exigem medidas desesperadas” – nem sempre a ética, a tranquilidade e a razão prevalecem em momentos conturbados. A racionalidade e a objetividade científica de um apagado Iluminismo aparecem como lampejos de difícil manutenção. A urgência atropela a esperança e seguimos na sobrevivência.

Os tempos e as marés mudaram. A Lua e todo o tipo de sorte – os jogos, os jogadores e as novas personagens no cenário desestabilizam a superfícies: os monstros e os embates das profundezas se agitam em movimentos intensos. Não adianta tentarmos uma tranquilidade quando não há estabilidade nos terrenos – terremotos, maremotos… as placas tectônicas estão se movendo violentamente – vamos ter que aprender a conviver – con_viver – com os problemas e essas desestabilizações; apre(e)nder a se mover nos escombros e nas ruínas; transitar em mundo de lava e cinzas. Bem e Mal, posições dualistas que marcaram nossas experiências, deslizam em suas próprias doutrinas.

Esperar (em um mercado de escassa esperança) que a civilização salve alguma coisa pode ser um erro – tenhamos sempre em mente, como um aviso em neon, que a civilização produz barbáries. Eu me lembro dos romanos, há séculos, rezando para seus deuses enquanto o império desabava e um outro deus emergia no horizonte: uma cruz de fogo bailava no ar e o vento murmurava que Pan estava morto…

É tempo de ficarmos com os problemas (e quais são esses ‘problemas’? das mudanças climáticas ao câncer; dos presidentes ao petróleo; da vida à sobrevivência) ou gastaremos vidas investindo toda a força em tentar resolver equações insolúveis ao invés de – ? É tempo de (re)inventar estratégias, criar possibilidades –

/problema/ tem origem grega, até onde verifiquei; o Merriam-Webster sugere, para mais informações, devil – difamador, um “problema de comunicação”, obstáculo. Existe também uma relação íntima com a ideia de atravessar com violência – /diabo/ a partir do termo grego /dia/ – através – e /bállein/: lançar, arremessar com força, violência, jogar. Aquelx que levanta. Esses termos podem ter originado, por sua vez, o /bailar/, /dançar/ – ou seja, nesses tempos desesperadores e desesperados, talvez, uma das estratégias seja bailar com o diabo através do caos – atravessar com movimentos firmes.

Um saber diabólico é, nesse sentido, produzir resistência contra a imposição de um regime comportamental sobre (e sob) nossos corpos, práticas, crenças e plasticidades; adotar postura crítica contra a domesticação dos nossos afetos; saber diabólico é apre(e)nder e produzir novas e outras formas, corpos, devires, obstáculos… é se desterritorializar e tornar-se alter, ser outra: é, em última instância, mover-se violentamente, jogar o corpo em outro ritmo, dançar contra e através ao invés de um dócil “dançar conforme a música”.

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