Saga Brasileira

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Um livro sobre o caminho que levou o Brasil a derrotar a hiperinflação pode não parecer muito sedutor. Quando cheguei na livraria para a, já tradicional, compra de livros mensais “Saga Brasileira” ficou na pilha das duvidas, no ultimo minuto acabou entrando na compra, ainda bem. O livro de Miriam Leitão é uma ótima leitura e, mais do que isso, é uma leitura importante para entendermos o Brasil.

“Saga Brasileira” não seria a minha escolha de leitura no momento, mas ele era o primeiro da pilha e resolvi respeitar a ordem e me dedicar a entender os planos econômicos brasileiros e a importância da estabilização da inflação. Comecei meio com o pé atrás e quando vi já estava seduzida pelas páginas. É verdade que o fato de estar, no trabalho, revendo a cobertura politica do ano de 1986 colaborou com o meu interesse. Eu lia a noite sobre os protestos contra o fechamento da conta-movimento e na manhã seguinte assistia aos protestos dos funcionários do Banco do Brasil em 1986 sobre o mesmo assunto. Foi uma experiência única que enriqueceu minha leitura, mas não foi isso que me fez gostar tanto do livro.

O período que é abordado vai de meados dos anos 1980 até o começo dos anos 00. Na maior parte da primeira metade do livro Miriam relata um período em que eu existia, mas não era gente, tenho pequenas lembranças da idéia de que era necessário estocar comida. Lembro da loucura que eram as compras do mês no tempo da hiperinflação. Miriam diz que economistas debatem se no Brasill houve ou não hiperinflação nos anos 1980, pra mim isso nem estava em debate, é óbvio que o que vivemos foi uma hiperinflação, pelo menos esse é o sentimento que sempre tive deste período.

Voltando ao fato do livro ter despertado uma série de lembranças. Não sabia muito sobre os planos econômicos, sabia dos nomes e do fato de que nenhum deles deu certo. Lembro dos cortes de zeros na moeda e da constante mudança de nome do dinheiro, mas sou incapaz de fazer uma cronologia do que aconteceu. O livro me deu a clareza de entender as loucuras que foram feitas por diversos governos para tentar corrigir os problemas econômicos. É verdade que eu tive o privilegio de ler no metrô sobre o anuncio do plano Cruzado e chegar ao trabalho e assistir ao então presidente José Sarney anunciar o plano junto com o Ministro da Fazenda Dilson Funaro. Isso fez os fatos relatados ganharem mais vida e tornaram toda a experiência mais rica.

Quanto mais próximo do século XXI o relato econômico chegava mais lembranças eu tinha. Lembro bem da festa na eleição do Collor, não pela vitória dele, mas da campanha mesmo. Os debates, as pessoas com adesivos dos candidatos nos carros. No colégio tivemos uma eleição entre os alunos e lembro que Ulysses Guimarães venceu seguido por Mário Covas, resultado bem diferente do que vimos nas urnas. Miriam ressalta o absurdo que foi o Plano Collor, o confisco do dinheiro e as consequências. Acho que nem um livro inteiro seria capaz de explicar como um governo pode simplesmente confiscar o dinheiro de toda a população. Na faculdade assisti a entrevista da Ministra da Economia Zelia Cardoso de Melo com Lilian Wite Fibe e Carlos Monforte. É uma entrevista brilhante, a ministra não faz ideia do que vai acontecer, não sabe responder as perguntas básicas e os dois jornalistas fazendo perguntas práticas. Só por essa entrevista já era possível ver como aquilo não ia acabar bem. Não acabou mesmo.

Da crise no governo Collor em diante posso dizer que já tinha virado gente, não era gente grande ainda, mas já participava de alguma coisa. Pintei faixas para passeatas que levaram ao impeachment, fui a passeata, vesti preto e tinha tabela com o nome dos parlamentares para marcar quem iriam votar sim ou não na sessão que retirou do poder o primeiro presidente eleito por voto direto depois de anos de ditadura. A economia ia de mal a pior, minha mesada nessa época estava mais para diária, os preços mudavam a toda hora. Miriam explica os processos econômicos que levaram a essa loucura. Tenho que confessar que não me esforcei muito para entender muito esse processo, me interessava mais no processo, nos passos que foram dados para chegarmos até uma inflação controlada e uma moeda confiável.

Chegamos a 1994, um ano marcante no Brasil. Perdemos Ayrton Senna, ganhamos uma Copa do Mundo depois de 24 anos e estabilizamos a moeda. Foi o ano em que a URV virou Real, foi o ano em que eu, péssima em matemática, fazia divisões por 2750 com uma super-facilidade. Ler sobre as turbulências que se seguiram quantas vezes nossa moeda esteve arriscada me surpreendeu. É claro que vi e senti no dia-a-dia que as crises mundiais afetaram o Brasil, mas não passou pela minha cabeça que uma conquista tão importante como à estabilidade da moeda pudesse estar a beira do abismo como é descrito no livro.

“Saga Brasileira” é uma ótima leitura por diversos motivos. O principal deles é a importância de sabermos o que aconteceu e como chegamos aqui, é a nossa historia, a nossa luta pela a estabilização da moeda. O segundo motivo é que o texto é ótimo, não é um economês incompreensível. O livro de Miriam Leitão deveria ser leitura obrigatória, principalmente para as gerações que não viveram o terror da hiperinflação.

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