Sobre expectativas, fanatismo, Rowling, Depp e maldição Imperius

 

Acho que praticamente todo mundo viu a declaração da Rowling sobre o Johnny Depp no papel de Grindelwald na franquia Animais Fantásticos e Onde Habitam, certo? Se não viu, dá tempo, dá uma olhada, porque, embora não seja exatamente sobre isso que vou falar hoje aqui, tem a ver com o tema. E, se você não sabe o que está acontecendo e qual é a polêmica envolvendo o Johnny Depp, well, “ignorância é uma bênção”, como já dizia o Cypher de Matrix. Eu bem gostaria de não saber também.

Bom, vamos ao assunto principal, que me deixou pensativa, me fez escrever sobre e vai me obrigar a fechar o ano de 2017 com muitas perguntas e nenhuma resposta.

Assim que a Rowling divulgou seu depoimento, em tudo quanto é canto, online e offline (na minha bolha social, pelo menos), só se falava sobre isso (“obaaa, debates, adoro”, pensei!). E em uma das conversas com amigos, alguém disse “tem muita gente, muito além do fandom de Harry Potter, com raiva do Johnny Depp. Mulheres que eram fãs e estão muito decepcionadas e com muita raiva dele.”

Raiva? Decepcionadas?

Eu não vou entrar aqui na discussão se o que a Rowling falou é bacana ou não, até porque acho que ela está de mãos atadas – e eu precisaria de uma coluna só para isso -, e também não vou comentar se é certo ou errado manter o Johnny Depp no papel, embora eu acredite que ainda não esgotamos esse assunto e quanto mais perguntas fizermos melhor – e eu também precisaria de uma coluna só para isso. Por hoje, a brecha que encontrei nisso tudo, com a qual me sinto à vontade para falar sobre, é o fanatismo e o relacionamento que algumas pessoas têm com seus ídolos; esse culto à idolatria de celebridades.

Segundo o dicionário, fanatismo é entendido como um estado de devoção irracional por algum tema ou pessoa. O fanático defende suas causas com tanto fervor que pode acabar flertando com o delírio e fica impossibilitado de ouvir argumentos opostos e de participar de um diálogo onde o outro discorda de suas premissas. No caso, o fanatismo artístico é uma obsessão exagerada por alguma figura pública. Mas podemos estender também para obras.

Como uma amiga minha falou outro dia, tendo em vista principalmente o caso do Johnny Depp e as acusações de estupro e abuso sexual em Hollywood, acho que este é um excelente momento para refletirmos sobre o quanto investimos emocionalmente em idolatrar uma pessoa, sem nem saber quem ela é, só porque é famosa. Isso vale para fãs de Johnny Depp, fãs de J. K. Rowling, fãs de qualquer coisa. Vale para todo mundo. E eu não estou falando de “fã” no sentido que a palavra acabou ganhando ao longo dos últimos anos como “admirador”, mas “fã” como núcleo da palavra “fanático”.

O que eu vi de comentários de mulheres defendendo não o Johnny Depp para o papel de Grindelwald, que era o que estava em discussão, mas o fato de ele ter batido na mulher porque “ela devia ser uma chata e deve ter merecido porque afinal ele é o Johnny  Depp e jamais faria algo assim sem motivo” me deixou um tanto paralisada. Sim, eu leio comentários de internet. Se eu me propus a escrever uma coluna sobre o tema fanatismo, era o mínimo que eu tinha que fazer. Me deparei com outros ainda mais assustadores, dessa vez de fãs da J. K, que se decepcionaram com ela, dizendo que “nunca mais vão ler nada dela porque tudo o que ela diz é falso”. Cara, tem tanta coisa errada nessa frase – a começar pelo “nunca” e “tudo”, que eu tô me sentindo o Luke no episódio VIII.

E numa movimentação dessas em que há muitos “fãs” envolvidos, uns gritando “morte ao Johnny Depp!”, outros “morte à J. K. Rowling, ela não me representa mais!”, cara, a multidão que fala mais alto acaba “ganhando”, e isso me aterroriza, principalmente porque poucos têm argumentos, muitos só querem gritar! E eu só consigo visualizar aquela cena clássica de pessoas apedrejando os condenados a caminho da forca, sendo eles culpados ou não.

A psicologia diz que o fanatismo traz segurança às pessoas que são precisamente inseguras. É uma espécie de compensação perante um sentimento de inferioridade. Tem um livro de Gustave Le Bom, Psicologia das multidões, que diz que a ação inconsciente das multidões substitui a atividade consciente dos indivíduos, ou seja, o indivíduo adquire, por conta do número de pessoas ao redor, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos com os quais, sozinho, não se permitiria concordar. E numa multidão os atos são contagiosos a ponto de você sacrificar seus interesses pessoais ao interesse coletivo, às vezes opostos, mudando completamente sua personalidade.

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Me assusta a rapidez com que as pessoas condenam as outras, tacam pedras e definem o que é certo ou errado. E agora já nem estou mais falando do Johnny Depp. Tô abrindo aqui para assuntos em geral. Dada a oportunidade de falar sobre o passado, descobrimos que todos nós cometemos erros. Algumas pessoas são babacas mesmo, outras são doentes, umas erram e tentam mudar e não conseguem, e umas erram, mudam e aprendem. O fanático ataca e condena a todos contrários a ele de forma perpétua, sem chance de remissão. E por conta dessa idolatria em massa, nem sempre dá tempo de a gente separar os doentes dos babacas e dos que querem mudar. E me deixa mais perplexa ainda saber que não importa o crime, todos têm o mesmo destino: fogueira. Até a J. K. Rowling foi condenada pelo “crime” de concordar – de mãos atadas – com a decisão dos produtores da franquia Animais Fantásticos de manter o Johnny Depp no papel. Ela concordou em mantê-lo no papel, em momento algum ela concordou com o crime que ele cometeu ou se tornou cúmplice. E ninguém tem como saber se, quando escreveu a carta aberta, ela não estava sob efeito da maldição Imperius lançada pelo próprio Grindelwald…

Ela não pode ir para o mesmo buraco que ele, da mesma forma que ele não pode ir para o mesmo buraco que os acusados de estupro, por exemplo. Não estou diminuindo, de forma alguma, o crime que ele cometeu, apenas ressaltando que são coisas totalmente diferentes. Digo isso porque também vi comentários de gente dizendo que “estupro, agressão física e verbal é tudo a mesma coisa, merece tudo morrer!” e, por pior que sejam todos esses crimes, não, eles não são a mesma coisa – e não vou nem falar do “merece tudo morrer!”.

Eu entendo que celebridade tem maior alcance e as pessoas se inspiram nelas e seguem seus exemplos, e tanto uma decisão como manter Johnny Depp numa profissão de destaque público quanto escrever numa carta que está de acordo com isso é dizer pro mundo “migo, tem muito dinheiro envolvido, tô nem aí pro que as pessoas fazem ou deixam de fazer” é revoltante! O fato de o dinheiro ditar decisões como essas é o que mantém machistas, homofóbicos, estupradores e abusadores ativos em Hollywood. Isso sim dá raiva. É disso que devíamos estar falando, não o quanto as pessoas estão ou não decepcionadas com um ator porque ele não atendeu às expectativas. Who cares? Expectativa é para amigos e família. É justamente esse alcance das celebridades, a capacidade de pessoas famosas induzirem os fãs a seguir exemplos, concordar com eles cegamente, é que estou questionando.

No caso da J.K. e do Johnny Depp, a franquia Animais Fantásticos envolve muito mais gente do que apenas os dois. É um direito seu deixar de ver a série por conta de um ator porque ele é um agressor. Boicote costuma ser uma linda e eficaz forma de protesto. Mas, se eu quiser assistir, vão me condenar à fogueira e dizer que estou sendo conivente com o que o Johnny Depp fez? Reflita. Seguindo essa lógica, caramba, eu seria conivente então com um bando de absurdos como racismo, estupro, abuso sexual, violência doméstica… a lista é enorme. Eu já vi muitos filmes e li muitas obras de gente acusada e condenada, inclusive, sem nem saber na ocasião. Mais uma vez, vou repetir, não estou dizendo que acho certo ou errado o Depp permanecer no papel de Grindelwald, porque, sinceramente, não faço ideia de como eu teria resolvido, com tanta pressão de tantos lados. Sei que o que ele fez foi horrível e eu não o defenderei em momento algum, até porque não sou advogada de defesa de ninguém, mas a ex-esposa dele retirou as acusações e ele não foi condenado e temos que levar isso em conta. Tô aqui tentando me colocar no lugar dos produtores… não é uma decisão simples. Não é como no caso do Kevin Spacey ou do Harvey Weinstein com muitas e muitas acusações, que tornam essa decisão da demissão bem mais fácil.

Enfim, saber informações da vida pessoal dos profissionais envolvidos numa obra mancha a experiência, é claro, mas até que ponto a obra deve ser condenada ao esquecimento por conta de seu criador? Tô levantando essa questão, porque, de verdade, eu não sei o que se deve fazer. Não tenho essa resposta. Woody Allen, acusado de abuso sexual de menor e estupro, Michael Jackson, idem, Monteiro Lobato, racista, Shakespeare, machista e dizem ter sido ele também antissemita… enfim, esses dois últimos nomes eu nem poderia ter colocado aqui na mesma conversa, na verdade, porque tem todo um contexto histórico envolvido e não se aplica à discussão, mas coloquei como exemplo apenas para ilustrar que grandes nomes podem ser uma “decepção” (num vocabulário fanático) na vida fora de suas obras. Será que devo boicotá-los? Não os de contexto histórico, esquece esses dois últimos nomes, digo os de agora. Devo evitar obras de criadores que respondem por algum crime na justiça? Enquanto eu não tenho essa resposta, sigo consumindo…

A questão primordial, acredito, é que somos influenciáveis demais pela cultura de violência, estupro, feminicídio, homofóbica a ponto de aceitar a estupidez humana como algo normal… Felizmente, porém, estamos vivendo um momento de barulho que, aos pouquinhos, tem modificado essa mentalidade patriarcal e machista. E agora fazendo a advogada do diabo aqui comigo mesma, talvez esse “fanatismo” todo que eu tô reclamando é que tem ajudado a tornar o barulho em um movimento tão grande a ponto de não poder mais ser ignorado. Talvez esse alcance todo das celebridades seja justamente o caminho para mudarmos algumas regras, a começar pela indústria do cinema e da tevê. Eu não sei. Só sei que eu sinto que podemos crescer mais com debates do que com ataques. Mas qué sé yo?

Para reforçar: Eu não estou dizendo que a gente deve sair por aí perdoando geral, também não estou dizendo que as pessoas acusadas não fizeram o que fizeram, estou apenas expressando meu desejo de ver mais discussões com ponderação à exaustão e menos julgamentos e condenações perpétuas. Como eu disse no início, nenhum desses assuntos estão nem perto de serem esgotados, muitas coisas não foram ditas aqui pra não me estender mais do que já me estendi, então, antes de me julgar ou condenar qualquer coisa que eu tenha dito, me faça perguntas e eu terei prazer em respondê-las (até porque no que compete a minha opinião sobre alguns desses fatos, deixei muita coisa de fora mesmo).

E última coisa:

Além de nada ser preto e branco e a gente viver uma escala de cinza, tem certas coisas que prefiro manter em mente antes de sair condenando alguém por algo que ela tenha feito ou deixado de fazer (isso serve para qualquer um, não apenas celebridades): eu conheço a pessoa? Sei quais foram as circunstâncias do que quer que seja? Ponderei sobre o que fui ou não levada a crer, se estou sob algum efeito hipnótico da multidão? E se fosse comigo ou alguém da minha família? Como sei se é verdade? Conferi as evidências? E se é mesmo verdade como isso afeta a mim e a sociedade? O que eu quero e posso fazer a respeito?

Feliz ano novo, peeps! <3

Que 2018 traga muita felicidade, surpresas boas e debates saudáveis para todo mundo!

#Fui

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