The Outsider

No site oficial do Stephen King, a frase que abre a sinopse do livro The Outsider é: “Um crime indescritível. Uma investigação conjunta. Numa época em que a fama de King está mais forte do que nunca, ele entrega uma história inquietante e impossível de largar”.  E essa é mais pura verdade, seu novo romance é recheado de auto referências ao mesmo tempo que mostra um autor que consegue se renovar.

Na pequena cidade de Flint City, no sul do Texas, Frank Peterson, de 11 anos, é assassinado da forma mais hedionda possível e toda a investigação do Detetive Ralph Anderson leva a crer que foi o querido treinador do time juvenil de beisebol da cidade, Terry Maitland, quem cometeu o crime. O problema é que conforme a investigação avança, tanto a acusação, comandada pelo procurador Bill Samuels, como a defesa, comandada pelo advogado Howie Gold, chegam a um impasse: Há testemunhas pela cidade que viram Terry na noite do crime, sujo de sangue e tentando fugir. Mas também existe um grupo de professores que viajou com Terry, um dia antes do crime, para participar de um encontro na cidade vizinha. Durante essa viagem há várias provas do técnico, na hora do crime, participando de um evento há quilômetros de onde o corpo de Frank foi encontrado. Como poderia Terry estar em dois lugares diferentes e bem distantes, ao mesmo tempo?

Com um início que lembra “Carrie”, onde a narrativa em terceira pessoa é interrompida por transcrições de depoimentos de testemunhas e relatórios policiais, King continua sua jornada pelo romance policial, dessa vez envolvida em muito mistério, dividindo o leitor entre acreditar ou não na inocência de Terry Maitland. Não há como não lembrar da trilogia de Bill Hodges, durante essa primeira fase do livro, com toda a investigação que ele descreve. Ao mesmo tempo, Bill Samuels, o brilhante e jovem procurador que quer usar esse caso para se eleger a um cargo melhor, remete em grande parte a trama de “Zona Morta”. Samuels está bem longe de ser tão horrível quanto Greg Stillson, mas seu personagem representa muito bem a política atual que vive os Estados Unidos. Dentro deste mesmo tema, King não mede esforços para alfinetar o presidente Donald Trump e nem aqueles que acreditam nele. Ao descrever a frente do tribunal, onde Maitland terá sua primeira audiência, lotado de pessoas usando bonés, camisetas e com cartazes com a frase “Make America Great Again”, slogan usado por Trump que se tornou sinônimo de hostilidade a tudo que é diferente do padrão americano de ser. Além de também discutir o poder destruidor das fake news, na forma como a população lida com o caso de Terry. Outro fato que vale a pena mencionar é que essa história não acontece no Maine, mas na fictícia Flint City no sul do Texas, uma das regiões mais famosas por ser intolerante.

Porém, esse é um livro que “brinca” com o leitor. Durante o primeiro terço, Stephen King monta uma trama policial forte e completamente envolvente, no melhor estilo Harlan Coben, – que faz uma participação especial no livro – criando um mistério que parece não ter solução de tantas reviravoltas. Então acontece a primeira grande virada da história e o tom do livro muda completamente, trazendo o antigo Steve que tanto amamos à tona: eis que o livro policial se transforma em um excelente livro de terror na forma mais pura que o autor pode conceber. Uma estranha entidade, um outsider, começa a assombrar personagens. Um ser obscuro, um dos mais aterrorizantes já criado pela mente de King, sai das sombras para mexer com nossa imaginação. Será ele real? Apenas um monstro mataria uma criança da forma mais hedionda possível ou um humano é capaz disso? E essa é a questão que mais se discute dentro da bibliografia de King. O terror é algo sobrenatural ou é a manifestação de algo ruim que existe dentro do ser humano? Uma excelente alegoria sobre o mundo atual, sobre o que é ou não verdade e até onde estamos dispostos a ir para descobrir essa verdade.

Como comentado no início do texto, é impressionante perceber o quanto Stephen King consegue permanecer atual e ainda surpreender seus leitores. Ele usa easter eggs como o nome do restaurante: Tommy and Tuppence, personagens de Agatha Christie – a rainha dos livros de mistério – para dar dicas sobre sua trama, já que eles misturavam razão e intuição para resolver seus casos. Usa lendas mexicanas e heroínas de luta livre para montar sua mitologia. Mas não se afasta do bom humor, mesmo em um livro tão sombrio, ao alfinetar Stanley Kubrick e sua versão de “O Iluminado”. Ao mesmo tempo, faz auto referências com direito a uma participação muito especial de uma personagem querida lá da trilogia do Bill Hodges, Holly Gibney, uma das melhores personagens que ele já criou. Aliás, há vários spoilers da trilogia durante a participação de Holly, por isso, o ideal é ler a trilogia primeiro.

Sem dúvida alguma esse é um livro inquietante, impossível de largar até o final, que leva o leitor a um passeio louco por emoções fortes. Que faz refletir muito sobre o que é certo e errado, verdade e mentira e principalmente sobre o quão forte são suas convicções. É impossível chegar ao fim desse livro com os mesmos pensamentos que se começou e isso, atualmente, é um exercício mental muito importante.

Outsider, tem lançamento previsto para 15 de junho, aqui no Brasil, pela editora Suma de Letras e com tradução de Regiane Winarski.

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