Trumptopias

A eleição de Donald Trump em 2016 reacendeu a preocupação com um futuro sombrio para os Estados Unidos. O clássico de Sinclair Lewis, Não vai Acontecer Aqui (Alfaguara, trad. Cássio de Arantes Leite), de 1935, voltou aos mais vendidos 80 anos depois do lançamento. O livro narra a ascensão de um político populista no meio da Grande Depressão. Lewis já tinha recebido o Nobel de Literatura. Depois que a mulher dele, Dorothy Thompson, entrevistou Adolf Hitler e se tornou a primeira jornalista expulsa da Alemanha Nazista, ele resolveu imaginar o que poderia acontecer em casa. A inspipração local era bem real e tinha nome: Huey Long, senador que pretendia se candidatar à presidência – até ser assassinado. Agora, vários escritores tentam imaginar como as coisas ainda podem piorar.

A revista de literatura e política Boston Review dedicou uma edição especial: Global Dystopias. Tem entrevistas com Margaret Atwood (O Conto da Aia) e China Miéville (A Cidade e a Cidade). Um artigo excelente de Peter Ross lembra como George Orwell escreveu 1984 (já doente, Orwell morreu meses depois da publicação), e examina a relevância da obra numa época em que um governo fala em “fatos alternativos.” Entre os contos, destaque para “Don’t Press Charges and I Won’t Sue”, de Charlie Jane Anders, um pesadelo de terapia de conversão forçada em que pessoas trans são “curadas” tendo a mente transferida para um cadáver reanimado do gênero “correto”.  

Resist: Tales From a Future Worth Fighting Against é publicado em benefício da ACLU (União Americana de Direitos Civis). Tem contos de alguns dos principais escritores fantásticos do momento: Saladin Ahmed, mais Charlie Jane Anders, Elizabeth Bear, C. Robert Cargill, Hugh Howey, An Owomoyela, John Scalzi, Fran Wilde…

A People’s Future of the United States, editado por Victor LaValle e John Joseph Adams, tem um tema mais positivo: é sobre possíveis futuros em que aqueles normalmente esquecidos ou omitidos pela história têm uma oportunidade de liberdade, de justiça, mesmo que tenham que lutar pra conseguir isso. Charlie Jane Anders (tá em todas…), Maria Dahvana Headley, Tananarive Due, N. K. Jemisin, Catherynne M. Valente, Seanan McGuire, G. Willow Wilson, e Daniel José Older. Timaço.

Na novela Vigilance, Robert Jackson Bennett imagina os Estados Unidos definitivamente dominados pela cultura das armas. Um reality show organiza e incita atiradores em massa a atacarem shoppings, estações de trem, etc. A ideia é que todos os cidadãos devem andar armados, vigilantes, para enfrentar um ataque assim. A premissa é que todo aquele papo de os Estados Unidos serem o país da esperança e da oportunidade é uma falácia. Para o produtor do programa, é um país em que impera o medo: o medo de que alguém – imigrantes, minorias – vai tentar tomar o que é seu. É também um país em que os imigrantes todos fugiram em 2020, deixando a economia em frangalhos.

Pra contrabalançar todo esse pessimismo, o site The Verge lançou a iniciativa Better Worlds, que desde o mês passado vem publicando histórias e animações com um viés de esperança. Como eles mesmos dizem, não se trata de utopias sem conflito ou visões tipo “Polyanna” em que a tecnologia resolve todos os problemas. Há desafios e riscos, mas todas mostram futuros em que a tecnologia melhorou a vida e em que as personagens encontram um caminho de esperança. Confiram. Tem Justina Ireland, Kelly Robson, John Scalzi e Rivers Solomon entre outros. https://www.theverge.com/2018/12/5/18055980/better-worlds-science-fiction-short-stories-video

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