Tulu, o polvo, e Zuky, a coruja

Os olhos negros do polvo Tulu contavam histórias. As imagens e as palavras se formavam nas íris e qualquer um que contemplasse por tempo suficiente enxergava o passado de Tulu e do universo. Exceto ele mesmo. Tulu era o único que não podia olhar dentro de si. Enquanto a pupila marcava o compasso das histórias, o polvo sofria em silêncio. Todos conheciam sua vida, porém, Tulu nada sabia.

Uma pequena coruja de olhos fechados parecia adormecida de tão quieta, sobre os galhos de uma árvore. Era a única que aparentemente não se interessava pelo passado de Tulu e do universo. O brilho dos olhos do polvo era tão forte e o negro tão envolvente que espécie alguma era capaz de ignorá-lo, no entanto, a coruja continuava de olhos fechados, como se preferisse a escuridão, como se já conhecesse seus caminhos e não precisasse de uma luz guia.

Ainda sem abrir os olhos, a coruja abriu as asas e voou para perto do polvo. Saltou e aterrissou sobre alguns de seus tentáculos, pisando de leve até encontrar a posição mais confortável. Em seguida, repousou as asas sobre os olhos de Tulu, forçando-os a se fecharem.

Tulu experimentou um outro tipo de escuridão e caiu em silêncio por uma eternidade. Não sabia mais onde estava e sentiu o corpo despencar. O vazio o tomou por completo, estava prestes a perder a consciência, quando a coruja o chamou de volta para a realidade e Tulu se lembrou de onde estava. Na escuridão, a voz da coruja era música e a melodia parecia vir de dentro de Tulu. A voz ganhou intensidade e as palavras então fizeram sentido; e a voz lhe dizia para abrir os olhos. Não os olhos que contavam histórias para os outros e que reverberavam o passado do universo, mas os que guardavam segredos em quartos trancados.

No escuro, Tulu enxergou os olhos alaranjados da coruja Zuky e viu, pela primeira vez, seu reflexo no espelho de fogo e todo o passado que existia nele. A própria beleza o ofuscou por alguns segundos, mas então o polvo entendeu quem era e mais importante quem podia ser, se permitisse a si mesmo despertar.

Desde então os olhos de Tulu nunca estiveram tão abertos! E Zuky pôde voltar para o seu galho, de olhos fechados, que era como a tudo enxergava.

Ps. hoje a coluna foi diferente, mas a quantidade de metáforas se faz tão presente que não está tão longe assim de um Terapivivizando “padrão”. =P Espero que vocês tenham gostado da pequena “fábula” entre Tulu, o polvo, e Zuky, a coruja.

#Fui

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