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Estou pensando em acabar com tudo ‘filme X livro’

Essa história me atingiu de uma forma tão pessoal, mas tão pessoal, que não vai ser possível escrever uma resenha nem do livro nem do filme. A ideia é só desabafar, sei lá. Compartilhar o que senti ao ler e ao assistir. De qualquer forma, temos a resenha do livro excelente da Frini aqui no site para quem quiser ler, então na medida do possível vou tentar focar na adaptação de Kaufman, que foi a obra que mais me chamou atenção, anyway.

Primeiro, eu peço desculpas se estou exagerando, estou sob efeito de remédios para dor por conta da cólica e do pescoço travado, mas ouso dizer que são duas histórias bem diferentes. A de Kaufman fala de velhice, passagem do tempo, viagem no tempo, até, e escolhas e não-decisões – e pincela ali um pouquinho nas entrelinhas a busca pela conexão, coisa que o livro explora muito mais. Iain Reid, autor do livro, fala pura e totalmente de solidão; da ineficácia e incapacidade do ser humano de atingir a excelência, ou seja lá o que for, sozinho.

Alguém facilmente poderia dizer que as obras se completam, afinal, velhice está intrinsicamente ligada à solidão de várias formas e à incapacidade de fazer qualquer coisa sozinho, certo? Ou só eu que penso assim por conta das minhas questões não resolvidas sobre a velhice? (hehe) O filme pode ser pura loucura, perturbador, sem explicação e muitas vezes exageradamente artístico – se é que isso existe – , mas é genial como Kaufman conseguiu adaptar a história focando em temáticas diferentes e no entanto tão próximas e interligadas, sem perder o elemento principal de cada uma.

Eu vi o filme primeiro. Sinceramente, a primeira coisa que me passou pela cabeça, ao terminar de assistir, foi o quanto eu tenho medo da velhice, medo de envelhecer, de chegar num momento da vida em que vou precisar de outras pessoas para me alimentar, cuidar de mim, pra sobreviver. Tenho medo de não lembrar da vida, de falecer aos poucos enquanto respiro, tenho medo de acordar um dia e perceber que décadas se passaram e as memórias não serão mais as mesmas, medo de me desconectar da realidade cada vez mais quanto mais perto do fim eu chegar. Sobretudo, tenho medo de parar de viver em vida. É aterrorizante! E Kaufman me entende. Aquilo ali é um filme de terror, sem sombra de dúvida. Eu já trabalhei em locadora. TERROR seria a área escolhida para o DVD, e toda vez que minha chefe tirasse dali para colocar na área DRAMA eu, como quem não quer nada, devolveria para o lugar CERTO.

Cá entre nós, eu não tenho medo de espíritos, simplesmente não acredito neles. Não acredito no sobrenatural. Mas tenho um medo poético e magistral da realidade e do tempo.

Mas e quanto ao livro? Bom, que fique claro que eu li apenas por conta da curiosidade que se acendeu durante o filme, porque estou lendo Crime e Castigo, Fundação e Como funciona a ficção, AO MESMO TEMPO, e, vamos combinar, já é muita informação para se absorver de uma vez só. Mas parei tudo e furei a fila com Iain Reid em apenas dois dias porque eu precisava entender melhor a visão de Iain sobre o tempo e a velhice. E qual não foi minha surpresa quando vi que a história, embora muito parecida com a do filme, abordava o outro lado do arco-íris do mal.

E solidão, ainda que seja paradoxal falar isso, porque acho que tem tudo a ver com a velhice, da forma como vejo, não me amedronta tanto. A solidão não me tira o sono. Eu abraço a solidão. É como se fôssemos velhas amigas. Nós temos um pacto, um entendimento. Portanto, o livro não me aterrorizou nem um pouco. Não é um gatilho. É a história de uma pessoa solitária, e, não se engane, é bem triste, e pode ser difícil para muitas pessoas, mas não me atingiu nem de perto como o filme, que me fez ter pesadelos enquanto acordada.

Vamos ser práticos e falar das diferenças. No livro temos um casal que se gosta, são atraídos um pelo outro, e que tem um relacionamento como qualquer outro fadado a terminar porque a protagonista está pensando em acabar com tudo. Ela gosta dele, mas está confusa e não vê futuro. É um livro que se passa numa única noite basicamente e onde acompanhamos o casal enquanto eles viajam para a casa dos pais do cara para um jantar, e para que ele possa apresentar a eles sua namorada. Os diálogos são so-so naturais e nos levam a refletir sobre muitas coisas, mas nada desconfortável. Nada fora do comum. Iain Reid se mostra muito mais filósofo, provocador de perguntas, eu diria perspicaz em sua maneira de mostrar a visão de mundo, do que opressor ou depressivo, ainda que seja uma história que fale de solidão e tristeza.

Já o filme, meus caros, ahhh o filme… O tempo todo, Kaufman nos mostra personagens frios com a vida e um com o outro, tristes, negativos, estranhos, fora do padrão e desencaixados com tudo. As cenas são todas perturbadoras, não tem UMA que se salve; os cortes, os ambientes, o foco… é tudo opressivo, para que você sinta que tem algo errado, sinta a perturbação no ar, e sinta que a passagem do tempo é algo incontrolável, até mesmo na narrativa de um filme. Kaufman quer que você, através do que está assistindo, sinta que cada decisão que você não toma, que você protela, enrola ou vai tentando se convencer de algo para não ter que decidir, pode significar muitos anos de vida vazios. No filme, a sensação que eu tive era a de que eu estava vendo algo que não deveria estar vendo. Como se eu estivesse vendo algo proibido, pessoal demais, através de uma janela ou uma câmera invisível; vendo pessoas agindo sem filtro, como agiriam em momentos constrangedores, ou de decadência, de falência dos órgãos e da mente, de velhice. É muito desconfortável. É claro que Kaufman tem um lado positivo em sua visão dramática, mas, por mais que tente, nesse filme, pelo menos, ele não conseguiu me oferecer a beleza de uma vida vivida, ainda que o tenha feito em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças. E só. Porque também não vejo nenhuma luz no fim do túnel em Quero ser John Malkovich, Anomalisa e Adaptação. Esse cara é muito louco, mas é por isso que eu gosto dele. Não posso dizer o mesmo de David Lynch – mas olhe só pra mim, estou divagando. O que eu quero dizer é: essa assinatura opressora dele talvez tenha sido boa pro filme Estou Pensando em Acabar com Tudo.

Quem esquentou meu coraçãozinho foi Iain Reid. Obrigada, Iain, cunhado do presidente da Islândia. Gente, vocês sabiam que ele é cunhado do presidente da Islândia? Vi no Google. Achei incrível. Enfim… voltando: Ele sim conseguiu suavizar meu terror com uma história mais pé no chão, menos sobrenatural, menos invasiva. Faltou dizer que no filme ficou parecendo que o cara lê a mente da namorada o tempo todo e sabe o que ela está pensando, como se estivesse escutando junto com o espectador e, maluuuuuco, como isso é bizarro. Senti arrepio. No livro não é assim não, ufa!

Uma frase do livro “A realidade acontece apenas uma vez” ficou registrada na minha mente, não só por eu concordar, mas porque já pensei tanto nela antes. Já tive papos longos sobre isso, sobre a gente editar as memórias, lembrar do que precisa, cortar e modificar a bel prazer, sem nem perceber. E como todas as lembranças são histórias fictícias. De fato, só viveremos o momento uma única vez e, ainda que isso me perturbe, tá tudo bem. Posso conviver com isso, quando o mesmo livro me apresenta frases como “Perguntas são boas. São melhores do que respostas”. É o quentinho, o abraço do autor no leitor, que eu estava precisando. Ele abre para refletirmos o que realmente importa. Perguntar ou responder. É fofo. É esperançoso.

Kaufman não me oferece esperanças, aquele maldito lindo. Ele é devastador. Tem cenas belas, verdade, mas pra ser sincera eu só vi todos os meus pesadelos e nenhuma saída. Foi uma experiência interessante e ao mesmo tempo inquietante. E pode parecer que estou arrependida ou horrorizada e que odiei com todas as minhas forças, mas espero que vocês tenham entendido com esse texto que é justamente o contrário. Quando algo assim me incomoda, e me faz refletir e escrever um post desse tamanho – eu que demoro séculos para escrever aqui no site (Krol sabe bem disso) –, é justamente quando eu fico mais empolgada pra entender o que está por trás dessa cutucada.

Não à toa estou aqui analisando, sob novas óticas, por que a velhice me incomoda tanto, por que a solidão, ainda que faça parte da melhor idade, na minha visão, não tem o mesmo impacto? Por que pessoas frias umas com as outras me incomodam? Por que os pais doentes me deixaram desconfortável? Por que a realidade que eu concordo que só pode ser vivida uma vez me aterroriza? Por que a passagem do tempo que não se percebe ou não se aproveita é o meu verdadeiro gatilho?

Nem o filme nem o livro são brilhantes a ponto de eu considerar favoritos na vida, e o filme não está no topo da lista da Kaufman pra mim, mas ambos me inquietaram e, como vocês viram, eu gosto de TUDO que me incomoda e me tira do eixo.

Não tem quase nada mais inquietante que as risadas de um velho que não quer nem de longe sorrir – e essa passagem você encontra tanto no livro quanto no filme. Se isso não mexe com você, não sei o que mais faria…

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