Coluna

Qual será o seu verso

O site Cheiro de Livro completou uma década este ano, agora em outubro, e a brincadeira da redação era escrever sobre “por que lemos?”. Miga, eu nem sei por onde começar.

Mundos? Dúvidas? Empatia? Fuga? Diversão? Solidão? Amizades? Respostas?

Tem um poema de Walt Whitman ‘O Me! O Life!’, que obviamente eu conheci por causa do filme Sociedade dos Poetas Mortos, e não por ter lido por conta própria, que o último trecho é assim:

“The question, O me! so sad, recurring—What good amid these, O me, O life?

Answer.

That you are here—that life exists and identity,
That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.”

E o personagem do Robin Williams no filme Sociedade dos Poetas Mortos, um professor, ainda contribui no final do poema, olhando para seus alunos, com a pergunta: “What will your verse be?” Na tradução: “Qual será o seu verso?”

Essa pergunta, todo esse trecho na verdade, de contribuir com um verso, e qual será este verso?, me pega de jeito. Toda vez que eu lembro. É uma pergunta forte. Qual será o meu verso? Como se saber disso fosse algo consciente… Como se eu pudesse responder.

Ora, eu penso que, talvez por pura covardia, a pergunta é muito mais importante que a resposta, e mais assustadora. Será que importa tanto assim o verso que vou escrever nesse mundo, na minha vida? Ou será que fazer essa pergunta em voz alta não é muito mais importante?

Eu gosto de perguntas. Elas me levam mais longe, me permitem sonhar, me permitem dar uma espiada em diferentes caminhos, sem a pressão de escolher um deles, como se eu estivesse jogando um livro-jogo. Perguntas me dão de presente a oportunidade de acreditar em coisas que eu normalmente não acreditaria. Elas abrem portais para todos os mundos, principalmente aqueles que visito quando leio. Porque enquanto leio minha mente é inundada de perguntas. Não há respostas. Respostas não me dizem nada, não me contam histórias.

“Por que eu leio” é o tipo da pergunta que me leva longe. Eu ganho muito mais experimentando-a, sentindo-a, do que dando cabo de sua existência. Não que uma resposta seja fatal a uma pergunta, porque às vezes elas se dividem como galhos, bifurcando caminhos, mas é importante saber fechar ciclos respondendo a pergunta com outra pergunta.

E a verdade é que, enquanto eu estou lendo um livro, e fazendo perguntas, aquela história em questão nunca vai ter uma última página para mim. Terminar um livro vai ser sempre um novo começo.

Eu não preciso saber por que leio e qual vai ser meu verso.
É o suficiente pra mim que eu tenha feito essas perguntas.

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