Coluna

Você já leu uma biografia?


 

Eu passei boa parte da minha vida lendo só romances. Lia um conto aqui e outro ali. Um livro de poemas acolá. Uma não-ficção só quando a escola obrigava. A ficção sempre parecia mais interessante do que a realidade, então acabava torcendo o nariz para tudo que não fosse inventado.

Não sei bem ao certo quando isso mudou, mas começaram a pipocar entre as minhas leituras um livro de reportagens aqui, um livro de memórias ali. Pouco a pouco o meu preconceito foi sendo minado. Ainda gosto muito de romances, claro. Mas a não-ficção ganhou seu espaço. Mais do que isso: descobri um novo amor por um gênero específico: biografias.

Não sei vocês, mas não conheço muita gente que goste de biografias. Até entre o povo do meio literário. Me parece que as pessoas só as lêem quando é para alguma pesquisa específica ou sobre alguém de quem elas sejam fãs. Eu já li biografia até de gente que eu nem conhecia.

É claro que, como em qualquer gênero, tem livros maravilhosos e outros que podiam não ter sido escritos. Tem uns que dão vergonha alheia, tipo a biografia de Jane Austen escrita por certo autor do gênero masculino que tem um capítulo de abertura inteirinho dedicado ao irmão dela.

Para mim, o que faz uma biografia te conquistar é quando você sente que o autor é realmente apaixonado pela vida da pessoa sobre quem ele escreve. E isso não significa passar pano para os aspectos problemáticos – que todo mundo tem – ou glamourizar cada micro detalhe da história pessoal do objeto de pesquisa. Também não significa que o autor necessariamente tenha que gostar da pessoa biografada (quero crer que os biógrafos do Hitler não sejam exatamente fãs dele), mas precisa gostar de estudar e falar sobre ela e deixar isso transparecer.

O objetivo de uma biografia não deve ser meramente contar os fatos que marcaram a vida de uma pessoa, mas sim convencer os leitores do porquê essa pessoa merecia ter uma biografia escrita. O trabalho de manter o interesse do leitor nesse relato também é muito difícil, já que a vida real não faz sentido e nem obedece regras como a ficção. A minha biografia favorita se chama Romantic Outlaws: The Extraordinary Lives of Mary Wollstonecraft and Her Daughter Mary Shelley da Charlotte Gordon e eu amo esse livro não apenas por me interessar pelas duas escritoras biografadas mas principalmente porque é extremamente bem escrito. A autora não se limita a narrar fatos secos – ela tem uma escrita fluida, com um estilo quase romanceado. Os capítulos se alternam entre as vidas da mãe e da filha, traçando vários paralelos entre elas, e muitos terminam com cliffhangers que não te deixam colocar o livro de lado. As 649 páginas passam voando.

Se você nunca leu uma biografia, vale a pena dar uma chance. Procure um livro sobre alguém de quem você já goste ou que tenha a ver com um tema do seu interesse. Você pode se surpreender.

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