13 Reasons Why – 2ªTemporada

Por Frini Georgakopoulos e Carolina Araujo Pinho

 

13 Reasons Why”  gerou muito debate sobre obras gatilho, o cuidado que deve-se ter em tratar alguns temas e quão pouco falamos de doenças mentais e suicídio. A estrutura de uma fita por episódio é viciante e te induz a maratona. Existia muita expectativa e desconfiança de como seria essa segunda temporada. Ela é igualmente forte, não tão viciante e pode ser resumida em uma palavra: sobrevivência.

Como sobrevivem as pessoas afetadas pelas fitas e a atitude de Hannah? Essa é a pergunta que os treze novos episódios tentam responder. Clay continua sendo nosso guia mesmo que a narração dos episódios não sejam mais de Hannah e sim de cada um dos personagens que são chamados a depor no processo que os Bakers abrem contra a escola. O artifício de um julgamento tem dois propósitos: reviver os fatos contados na primeira temporada e, o mais importante, mostrar que cada história tem muitos lados e versões. E que jovens cometem erros e isso não precisa defini-los. Errar é diferente de ser criminoso e o que Hanna colocou no “mesmo balaio” na primeira temporada é separado na segunda de forma coerente, crível e real.

Os depoimentos acrescentam histórias às lacunas deixadas pelas fitas de Hannah e nos mostram como aqueles personagens estão sobrevivendo aos traumas, às culpas e ao High School. Tendo sido produzida em pleno auge de movimento como Me Too a série coloca cores mais fortes na diferença de tratamento entre homens e mulheres, em todos os episódios algum personagem, até mesmo Clay, é alertado de seus preconceitos de gênero. São nos depoimentos de Jessica que o tema se despe da narrativa para ser mais explícito no que está dizendo. O segundo depoimento, no último episódio é o “quer que eu desenhe” dos roteirista para a audiência.

Hannah sofreu bullying e o colocou entre seus motivos. Ela não sobreviveu a eles e essa temporada retoma uma história que tivemos apenas um leve vislumbre na temporada anterior: Tyler e as armas. Ninguém sobre mais com os abusos do que Tyler, aqui a sobrevivência dele começa com cores mais alegres, um novo amigo, mas parece ser apenas um refresco para a sua trajetória na narrativa. A cena final do abuso contra Tyler é gráfica e está causando muita gritaria. E deveria.

Como descobrimos durante a segunda temporada, Hanna foi uma bully na escola anterior e ela explica o que a fez cometer tais atos e como ela se arrepende deles. Na primeira temporada, vimos Tyler ser vítima de bullying, mas não sentimos pena por acompanhar a visão de Hanna dele: um rapaz quase que pervertido.  Já na segunda, conhecemos melhor o personagem, um rapaz com pais preocupados, que se envolvem e querem ajudar o filho. O vimos admitir o que fez, entender o seu papel nisso e querer melhorar, tudo isso não porque adultos o forçaram a falar, mas porque ele quis, ele sentiu que era o certo a fazer. Acompanhamos a nova amizade com Cyrus, que é um excelente personagem e perfeito para mostrar a quebra de estereótipos. E, mesmo assim, vimos que Tyler continua sofrendo, que a escola até aprendeu um pouco com o que aconteceu com Hanna e orientou Tyler. Mas que, mesmo quando os pais se envolvem e a escola presta a atenção devida, o jovem pode estar passando por problemas seríssimos e se ele não se abrir, não levar o problema – por mais sério que seja – para os adultos responsáveis, não vai adiantar. O tema da falta de comunicação é mostrado e reforçado em vários momentos tendo seu auge na conversa de Clay com o pai após seu testemunho no julgamento.

Voltando a Tyler  e o que acontece nos dois últimos episódios. Entendemos que, embora ele tente se integrar, não só não consegue, como outros monstrinhos na escola mantém a agressão. Porque não é somente o bullied que precisa de ajuda, mas o bully precisa ser chamado a atenção e não vimos isso nem na primeira e nem na segunda temporada.  E a agressão final é uma agressão a todos nós e quase entendemos a escolha dele querer metralhar a escola. Quase…

Outra questão que a segunda temporada levanta é a do envolvimento dos pais. Acho que é uma questão central, porque se a série se propõe a abordar temas complexos como abuso, suicídio, bullying, depressão, é essencial mostrar o papel dos adultos nisso tudo. Seguimos os pais de Alex – que tentou suicídio e está se recuperando -, os do Clay – que querem se aproximar do filho -, os de Jessica – que querem proteger a filha – e até os de Bryce – que não querem acreditar que criaram um monstro. É importante ver esse lado para entender que adultos também cometem erros e que a comunicação precisa ser uma via dupla. Vemos até o mea culpa de Kevin Porter por não ter conseguido ajudar Hannah. Seu depoimento no julgamento mostra como ele está tentando sobreviver com a culpa do ocorrido.

Sobre os bullies não terem o que merecem, essa foi uma outra questão de muita gritaria na internet. E também deveria ser. Bryce não é preso e seus comparsas se safam de tudo porque são ricos e/ou atletas. Isso é revoltante como deveria ser, mas também espelha a realidade, infelizmente. Basta assistir ao documentário “Hunting Grounds” para entender como aquele treinador protege jovens atletas de crimes. Como a escola se preocupa mais em conquistar títulos do que proteger alunas. Assim que acabei de ver a segunda temporada de “Os 13 Porquês”, assisti ao bate-papo com atores, consultores e roteiristas da série chamado “Beyond the reasons” e lá muito é explicado, inclusive a razão de Bryce ter se safado. É revoltante, mas é real. Infelizmente …

Muitas pessoas são contra o seriado “Os 13 porquês” porque acreditam que estimula o suicídio. Acredito que a melhor maneira de lidar com situações sérias é falar sobre elas e, ao nosso ver, é o que o seriado faz: abre o diálogo para temas delicados e desconfortáveis, mas que estão ao nosso redor. Não falar sobre o tema não é garantia de que ele não vai continuar a acontecer. De repente, com diálogo fique mais fácil entender o silêncio de um amigo, ou o afastamento do outro. De repente, vidas podem ser salvas. Só a possibilidade já é o suficiente. Mas o seriado é repleto de gatilhos e o aviso antes do início da temporada e no final de cada episódio é essencial para informar ao público sobre o conteúdo prestes a ser exibido.

A segunda temporada era desnecessária? Para a trama, sim. Para o público entender que existem muitas consequências para quem sobrevive a perda de alguém, não. Logo, achamos que foi uma segunda temporada extremamente bem estruturada e que funcionou bem para o propósito da série. Se ocorrer a terceira, espero que os vilões realmente sejam punidos. Hanna, Tyler, Jessica e todos nós merecemos um pouco de justiça, né? Mesmo que seja inda algo mais próximo da ficção.

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