A Dança da Morte


Há alguns anos, em uma entrevista, Stephen King comentou que fica meio chateado em saber que a maioria de seus fãs e grande parte dos críticos literários acha A Dança da Morte o melhor livro já escrito por ele. O motivo de desagradar a King é que esse é um livro do início de sua carreira, lançado em 1978, revisado e relançado em 1990, mas ainda assim um dos primeiros trabalhos do autor. O problema é que A Dança da Morte é sem dúvida nenhuma uma das melhores obras dele e o meu favorito entre todas as obras que ele já escreveu.

Relançado no Brasil em 2013 pela editora Suma de Letras, com nova tradução de Gilson B. Soares, esse épico criado por King acontece em um mundo pós-apocalíptico, destruído por uma epidemia de gripe mortal que matou mais da metade da população mundial. Os sobreviventes começam a ter visões que os enviam para diferentes lugares dentro dos EUA. Alguns se sentem atraídos por sonhos que têm com uma mulher de 108 anos, Mother Abagail, que os direciona para Boulder, no Colorado e dali começam um novo tipo de democracia na Zona Livre. Outros sonham com Randall Flagg (sim, o mesmo de A Torre Negra), um ser demoníaco com poderes que os leva até Las Vegas. Esses dois grupos entram em conflito desencadeando a eterna luta do bem contra o mal, um debate tão antigo quanto a própria existência, mas que nas mãos de King vira uma enorme alegoria sobre os EUA dos anos 1980.

É curioso estar aqui em pleno 2018 escrevendo sobre um livro que foi lançado pela primeira vez em 1978, quarenta anos atrás, que passou por modificações e acabou sendo relançado em 1990, logo ele é uma boa reflexão da década de 1980, mas, ao mesmo tempo é uma história muito atual, principalmente se pensarmos sobre o mundo extremamente polarizado que vivemos hoje, onde todos os lados acreditam nessa divisão entre o bem e o mal, claro que com concepções bem diferentes sobre cada uma dessas qualidades.

Uma rápida análise desse livro seria a de que ele é um épico de mil páginas sobre pessoas que conseguiram sobreviver uma epidemia apocalíptica e precisam agora salvar o mundo. Não existem zumbis, todos os sobreviventes são imunes ao vírus e a maior ameaça são os próprios humanos. Mas A Dança da Morte é muito mais profundo do que isso, ele mostra que o bem não é puramente bom, nem mesmo Mother Abagail que duvida de si mesmo e do quanto ela é realmente capaz de liderar. Ao mesmo tempo que há pessoas que discordam dos métodos de Randall Flagg e logo percebem que o mundo que ele deseja construir só será benéfico a ele mesmo. Mas essa necessidade de ter lados definidos, de ter um inimigo palpável era uma questão muito atual nos EUA na década de 1980, quando o Presidente Ronald Reagan tratava seu país como um de seus western, alimentando a Guerra Fria com a União Soviética. Ao mesmo tempo a AIDS tornava-se o mal da década, uma doença sem cura que começava a ser entendida. A AIDS também vinha revestida com um estigma por ser uma doença que atingia majoritariamente a população gay, aumentando o preconceito. Todos esses fatores estão bem presentes no livro, que se aprofunda ao mostrar o pior do ser humano quando se apresenta em situação de sobrevivência.

Afirmo sem medo que A Dança da Morte é um clássico de King, ao lado de O Iluminado, Carrie e It. Um livro que desperta medo em alguns por seu tamanho, mas uma história tão bem construída, com personagens tão bem desenvolvidos, que vale o desafio de enfrentar suas mil páginas, como o autor mesmo comenta em um de seus prefácios. (Uma saudade, os prefácios do King). Ele continua atual e lá no primeiro lugar entre os meus preferidos do King e entre os meus favoritos de todos os livros que já li.

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