Alice B. Sheldon / James Tiptree, Jr

Hoje, numa época em que falamos tanto em identidade de gênero, tem uma escritora acima de todas que não só merece, mas que precisa ser mais conhecida, estudada, e lida: Alice B. Sheldon, mais conhecida pelo pseudônimo masculino James Tiptree Jr.

Nascida em 1915, antes de se tornar escritora ela teve uma vida tão movimentada que já valeria um filme, e que é contada de maneira brilhante por Julie Phillips na biografia James Tiptree, Jr: The Double Life of Alice B. Sheldon (A Vida Dupla de Alice B. Sheldon). Filha de uma família da alta sociedade de Chicago, Alice passou a infância desbravando a África com os pais exploradores.

Na juventude, teve uma fase boêmia e tumultuada de socialite/artista. Se alistou no corpo feminino do exército americano na Segunda Guerra. Atuou no serviço de inteligência e depois da guerra foi parar na recém-criada CIA junto com o segundo marido. Não ficou muito tempo, e saiu para estudar psicologia. Inquieta, durante anos teve dificuldade para encontrar seu lugar, tanto profissionalmente quanto pessoalmente.

Alice no exército

Apesar de ter se casado duas vezes com homens – apanhou do primeiro, mas ficou com o segundo até o fim da vida – ela se sentia mais atraída por mulheres. Mas tinha extrema dificuldade para lidar com isso e expressar o que sentia, principalmente depois de uma experiência traumática na adolescência. Nem o convívio com outras lésbicas no exército ajudou. Da mãe recebia aquele tipo de amor que sufoca e intimida: Mary era escritora, e só depois do declínio dela é que Alice começou a se sentir livre para escrever as próprias histórias.

Mas como queria se livrar da bagagem de uma família conhecida, resolveu adotar um pseudônimo. Meio por acaso (ou não), inventou um nome de homem: James Tiptree Jr.

Era o final turbulento dos anos 1960. Alice já tinha mais de 50 anos, mas só agora, por trás do pseudônimo, teve a liberdade e a coragem de abordar assuntos difíceis em contos sempre irônicos, e muitas vezes cruéis. Em “The Women Men Don’t See” (As Mulheres que os Homens Não Vêem), o protagonista homem não consegue entender por que uma mulher e a filha preferem ser levadas embora por alienígenas do que continuar sendo vistas como objetos sexuais. “The Girl Who Was Plugged In” (A Garota Conectada) sofre de uma deformidade física, e depois de tentar se matar é condenada a trabalhar controlando remotamente uma celebridade artificial – um corpo feito em laboratório, sem cérebro, que existe apenas para ser famosa e fazer publicidade. Quando um milionário se apaixona pela celebridade fake a resolve “libertá-la”, acaba matando as duas. Em “Houston, Houston, Do You Read?” (“Houston, Houston, Nos Escuta?”), três astronautas são catapultados para o futuro por uma anomalia, e descobrem uma Terra em que não existem mais homens, e as mulheres se reproduzem por clonagem. O contato acaba em violência, mas as mulheres conseguem o que queriam deles: o sêmen. Elas não fazem a menor questão de integrá-los à nova sociedade. Não fazem falta. Em “The Screwfly Solution” (“A Solução da Mosca Varejeira”), um vírus faz os homens odiarem e atacarem violentamente as mulheres. A história é narrada alternadamente em mensagens trocadas por um casal.

Os melhores contos estão reunidos na coletânea “Her Smoke Rose Up Forever”.

As histórias chamaram a atenção de editores e outros escritores. “Tiptree” começou a se corresponder com vários deles, como Harlan Ellison, Harry Harrison, Robert Silverberg, Barry N. Malzberg. E especialmente com Ursula Le Guin, com quem fez uma grande amizade. E Joanna Russ, uma escritora e ativista que via em Tiptree um homem capaz de entender a causa feminista. Russ também estava se descobrindo como lésbica, e chegou a desconfiar de que Tiptree seria uma mulher.

Alice se escondeu como pôde. Ganhou dois prêmios Hugo e três Nebula, mas nunca compareceu às premiações. Quando a verdade finalmente vazou, em 1976, ela se desesperou. Achou que seria desprezada pelos amigos, e por mais apoio que tenha recebido, acabou nunca se encontrando pessoalmente com nenhum deles. Em menos de uma década, tinha criado algumas das histórias mais instigantes e vibrantes da ficção científica. Mas forçada a se abrir com a própria identidade, não conseguiu. Teve dificuldades para voltar a escrever, e publicou pouquíssimo nos anos seguintes.

Alice com o marido

A saúde do marido, 12 anos mais velho, se deteriorava. Alice não conseguia se imaginar ficando sozinha. Em 1987, eles tomaram a decisão. Alice matou Huntington com um tiro e se suicidou em seguida, segurando a mão dele.

A história de Alice Sheldon ajudou a derrubar barreiras e expectativas sobre a distinção de gênero na literatura. Em 1991, as escritoras Pat Murphy e Karen Joy Fowler resolveram preservar esse legado. Criaram o prêmio literário James Tiptree, Jr, para obras que expandem ou exploram nossos conceitos de gênero. Além de um ganhador, publicam anualmente uma lista de histórias recomendadas. Elas fazem questão de deixar claro que não é um prêmio politicamente correto, e sim uma busca por trabalhos instigantes, imaginativos, e porque não, incômodos.

 

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