As Crônicas Marcianas – Ray Bradbury

Ilustração de Les Edwards

O que fez este homem de Illinois, me pergunto, enquanto fecho as páginas de seu livro, para que episódios sobre a conquista de outro planeta me povoem de terror e de solidão? Como podem tocar-me estas fantasias, e de uma maneira tão íntima?

Quem pergunta é ninguém menos que Jorge Luis Borges, no prefácio da edição em língua espanhola de As Crônicas Marcianas, em 1954.

Bradbury por Les Edwards

A resposta é que ele trouxe para a Ficção Científica qualidades artísticas e literárias que o gênero até então não tinha. E que mesmo hoje não são tão comuns. Até ali, os escritores de FC eram mais conhecidos pela imaginação do que pelo talento literário para expressar essas ideias. Publicavam seus contos em revistas baratas que pagavam pouco. Precisavam escrever muito, e rapidamente, pra garantir o sustento. Eram aventuras espaciais eletrizantes, embaladas por capas coloridas e sugestivas. Já nas histórias de Ray Bradbury (1920 – 2012), o que importava não era a tecnologia, mas o impacto emocional e pessoal dela. E mesmo assim, foi da necessidade pura que nasceram as Crônicas Marcianas.

 

O jovem escritor já vinha publicando contos em revistas como Planet Stories, Super Science Stories, e Thrilling Wonder Stories. Em 1949, deixou a mulher grávida em Los Angeles e foi a Nova York procurar as grandes editoras. Mas não havia mercado sério, fora das revistas, para o que ele escrevia. Já tinha publicado uma coletânea por uma editora pequena especializada em terror, mas as grandes de Nova York só se interessavam por romances. Um desses editores perguntou então se ele não tinha alguns contos que pudesse juntar numa coisa só. Era o que se chamava “fix-up”, muito comum na época. Escritores que tivessem histórias interligadas davam uma ajeitada aqui e ali e publicavam num volume só. Foi assim com Fundação, de Isaac Asimov, entre outros tantos. Bradbury já tinha pensado num livro sobre Marte, e tinha várias histórias sobre viagens ao planeta vermelho. Voltou para a Associação Cristã de Moços, onde estava hospedado, e virou a noite fazendo um esboço. Voltou no dia seguinte e conseguiu do editor um adiantamento de 750 dólares. De volta a Los Angeles, tratou de preencher os “buracos” entre uma história e outra.

Ilustração de Michael Whelan

Parece improvisado, mas funciona. Bradbury relata vários momentos na colonização humana de Marte. O planeta em si é bem diferente do que conhecemos hoje, depois de décadas de exploração não-tripulada. Na história de Bradbury, morte e loucura esperam os primeiros astronautas. O contato com os humanos acaba sendo fatal para os marcianos, num paralelo com as doenças transmitidas pelos europeus aos indígenas nas Américas – e também com o destino dos marcianos invasores de H. G. Wells. Os humanos também não se saem muito bem. Encontram em Marte a solidão e a nostalgia por uma Terra perdida e que a todo custo tentam reconstruir. Num reflexo das preocupações pós-Segunda Guerra, os colonos vêem de longe a Terra se aproximar de um devastador conflito nuclear. E Marte acaba sendo o último refúgio dos terráqueos.

Meu exemplar autografado da edição definitiva de 2009

Não esperem encontrar aqui o planeta minuciosamente descrito em Perdido em Marte, por exemplo. O tom o tempo todo é elegíaco, de uma nostalgia de algo perdido, de uma vida mais simples e ingênua que estava desaparecendo no pós-guerra. Bradbury era um saudosista, e temeroso quanto ao futuro da humanidade e do uso que faremos das novas tecnologias. As paisagens áridas não estão ali simplesmente para serem conquistadas pelos bravos astronautas, e sim são um reflexo da solidão, uma lembrança da nossa pequenez no Universo.

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