As Perguntas

capa do livro As Perguntas

Cheguei em casa em uma noite como tantas outras. Depois de ficar dentro de um escritório das 9h às 20h, trabalhando loucamente, mas sempre com aquela sensação de “poderia ter feito mais” mesclada a de “nunca vai mudar”, cheguei em casa, pronta para um banho relaxante e Netflix.

Ao passar pela portaria, me foi entregue um pacote da Companhia das Letras. Até aí, nada de surpresas, já que estou acostumada a receber livros da editora. Mas ao abrir o pacote, me deparei com um exemplar de “As perguntas”, autografado nominalmente para mim pelo autor Antonio Xerxenesky (o ser humano que consegue ter o sobrenome mais complexo do que o meu). A dedicatória diz: “Para a colega Frini, esse terror urbano tão pessoal”. Essas palavras, muito antes da primeira frase do livro, já me disseram muito sobre o que viria.

Em “As perguntas”, seguimos um dia na vida de Alina, uma mulher que trabalha em uma produtora de vídeos em São Paulo, cursa doutorado em religião comparada, é viciada em filmes de terror e está extremamente infeliz com o rumo que sua vida está tomando. Até que ligam para ela da delegacia e pedem sua ajuda em um caso no qual, aparentemente, uma seita ocultista estaria envolvida.

Como disse, o livro se passa todinho em 24 horas. Começa no início da manhã de Alina e termina no amanhecer do dia seguinte. Dentro desse período, seguimos a rotina da protagonista em dois momentos: DIA, contado em terceira pessoa, e NOITE, narrado em primeira pessoa. E sim, isso é relevante para o impacto do livro.

Durante a leitura, testemunhamos a infelicidade de Alina sobre seu trabalho, a inexpressão de suas amizades e o tédio de sua rotina. A todo o momento, a personagem se questiona sobre sua geração, sobre como a anterior já tinha vida resolvida, casa e família aos 30 e como a dela trabalho loucamente só para pagar o aluguel. Só aí já dá para se identificar com a personagem.

Quando Alina é chamada na delegacia, acompanhamos as perguntas feitas pela delegada e a falta de capacidade de responder de Alina pelo simples fato que a moça é uma doutoranda. Só. Não é Robert Langdon! Alina é uma jovem que estuda e fim. Mesmo assim, ser chamada na delegacia é um fato fora do comum para a sua vida e só depois de ela dividir com seus amigos – que, assim como nós, estavam esperando uma mega reviravolta, mas se frustram com a falta dela -, Aline se dá conta (e nós também) que nem tudo é como nos filmes. E segue o baile.

A leitura corre sem muitas novidades além de aprofundar para nós, leitores, a angústia de Alina. Recentemente, a moça perdeu o irmão, que morava em Jerusalém com família e havia encontrado “seu lugar no mundo”. Além da perda do irmão, Alina sente não ter raiz, razão e busca em cursos, festas, em todo lugar algum tipo de conexão. Ela está sempre se perguntando sobre tudo, indagando o sentido da sociedade, da vida, da existência. Esse constante questionamento gera nela e em nós uma angústia tangível e que alimenta a segunda parte do livro.

Em NOITE, Alina decide investigar a tal possível seita ocultista, já que recebeu um convite/desafio deles. Aqui, Antonio arrasa na construção de clima. Gente, assustar no papel sem recurso de som e imagem não é para qualquer um. Nessa parte do livro, duas sequências – do ritual e da festa – são muito bem construídas e adicionam ao clima tenso do livro.

A força de “As perguntas” está nos detalhes. Por exemplo, o autor introduz um fato nas primeiras páginas do livro – Alina vê sombras desde pequena – e, no decorrer da narrativa, ele muda o foco desse fato. Quando a sombra volta com rosto e mais força no fim do livro, seria ela real? Seria ela a personificação da depressão ou algo mais oculto e satânico? São perguntas e mais perguntas e, assim como Alina, queremos respostas. Mas, veja só, nem sempre a gente consegue tudo que queremos na vida, não é mesmo? E, na minha opinião pós leitura, é sobre isso que trata “As perguntas”. Era isso que Antonio quis dizer ao escolher “terror urbano e pessoal” na dedicatória do meu exemplar. O que mais tememos em 2017? Violência, guerra, terrorismo, ou perder a nós mesmos em uma cidade grande repleta de gente solitária e nos dar conta de que não temos mais tanto tempo e tanta vida pela frente?

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