Bailar com o Diablo

 

Bailar com o Diablo

 

 

solidão é lava que cobre tudo

amargura em minha boca

sorri seus dentes de chumbo

solidão palavra cavada no coração

resignado e mudo

no compasso da desilusão

 

desilusão, desilusão

danço eu dança você

na dança da solidão

Dança da Solidão, Paulinho da Viola

 

Minhas avós costumam falar que só não há jeito para a morte. De resto, dá até pra dançar com o diabo.

 

Entrar nessa casa assim, cru, onde nasci e fui criado, com as mãos grossas e corpulentas de um homem apertando minha garganta, é um pesadelo.

Engasgo e não consigo falar com os olhos inundados. Sinto que estou perdendo qualquer sopro que me anima.

 

Eles destroem o nome que pairava sobre essa sala. Agora são fragmentos desconectados, mas há o fantasma que vagueia com o brilhofogo nos olhos.

Eles, esses homens, esses mesmos e exatos homens, me atormentaram cotidianamente nessa casa.

Eles me perseguiam.

Eu corria, enxergando pouco através das membranas suadas e dos cílios grandes demais, eu corria e ficava exausto e apavorado porque não sabia nem falar direito e eles já sabiam atirar.

Eles me seguravam e enfiavam páginas do livro dentro da minha boca até saliva escorrer pelo meu queixo e lágrimas vazarem, ânsias de vômito enquanto o papel se amaciava entre meus dentes e língua e eu tinha que engolir aquela massa branca de palavras.

 

Ali, naquele canto, uma mancha escura no tapete – sangue ou urina, medo ou dor. Ajoelho e toco o tapete seco, deito o rosto e tento sentir algum cheiro, mas há apenas poeira e mofo esverdeado que se alastra.

Mas o cheiro está em mim, na minha pele, nas minhas narinas, sangue, mijo, suor, os chutes e socos que explodiram por todos os lados.

Eu sempre achava que ia morrer.

 

As janelas são olhos fechados com tábuas irregulares de madeiras cheias de pregos enferrujados.

As mãos apertam mais, afundam minha carne e minha traqueia, tanto ar que me falta e tanta raiva que sobra.

Angry is good. Angry gets shit done.[1]

 

Quero sair mas sigo pela casa, quero fugir mas sou arrastado.

Ali, no outro salão com as portas de vidro quebrados, rachados, eles rezavam e pregavam. De branco, verde, amarelo, azul, pregavam e trepavam e riam e bebiam e afirmavam o quão bom eles eram e todos os outros concordavam e diziam “eu também sou bom, senhor!”, e quando eu caranguejo passava de costas e ao contrário eles olhavam, apontavam, rosnavam e salivavam; atiravam pedras e eu mal sabia andar quanto mais levantar os braços pra tentar impedir que uma das pedras atingisse a esquerda do meu rosto, quase me cegando, eu que já não enxergava, abrindo o supercílio e uma cachoeira de sangue.

É sempre quem não tem pecado que atira a primeira pedra.

 

i’m not sure who’s fooling who here

as i’m watching your decay

(…)

cause i can look your god

right in the eye 

Pancake, Tori Amos

 

Subo as escadas como a menina naquele filme, exatamente como em um pesadelo, em uma impossibilidade de sonho – mas subo as escadas mesmo assim. Ouço o tilintar metálico-eletrônico das escolhas dos outros como barulhos fantasmagóricos, mas eu sou o fantasma.

Eu sou o fantasma aqui.

Essa casa não mais me pertence, mas vou assombrá-la. Vou atormentar seus novos inquilinos – esses homens que agora tentam me matar mais uma vez, mesmo depois de morto eles ainda querem me matar.

 

No espelho, alguma coisa:

há um brilho de faca

onde o amor vier[2]

No espelho, uma vida inteira em carne viva. Esses homens são a morte. Talvez para além da morte – esses homens são o extermínio. Mas aqui nesse espelho eu ainda me encontro com vida.

E penso nas minhas avós.

Só não há negociação com a morte; não há remédio para a morte; não tem jeito. Mas ainda não estamos lá.

Como ela fez há tantos anos, transformo profundidades em superfícies e atravesso o espelho.

Se ainda estou vivo e se, nesse jogo, tudo vale, então vou andar por todas as ruas e tocar fogo naquele velho navio.

A casa colapsa, um tremor interno, um terremoto íntimo e os canos velhos ossos corroídos e os fios velhas veias ressecadas.

Um dia eu volto.

Mas agora não dá para jogar esse xadrez com a morte, querido. Simplesmente não dá.

Dessas fumaças surgem os espectros dos meus – por entre o fogo e fumaça, dos destroços e das ruínas, surgem os meus.

Para enganar a morte, para ser coiote e trickster, vou dançar com o diablo e atravessar.

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[ver aqui também – por um saber diabólico]

[1] American Gods, série da emissora Starz, inspirada no livro homônimo de Niel Gaiman.

[2] Entre a Serpente e a Estrela, versão de Aldir Blanc; interpretada por Zé Ramalho.

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