Chick lit não é sinônimo de bobagem

Toda forma de entretenimento tradicionalmente voltada para o público feminino é alvo de desprezo e ridicularização generalizados: tanto por parte dos machistas, que não podem arriscar sua masculinidade assistindo a uma comédia romântica, quanto de muitas fiscais de carteirinha feminista, que querem tirar a credencial de qualquer mulher fã de Crepúsculo. É claro que isso não poderia ser diferente na literatura, né?

A chick lit (“literatura de mulherzinha”), especificamente, é um gênero que já traz no nome o desdém. Apesar de ter livros que tratam de muitos temas pertinentes à vida da mulher moderna, denunciam comportamentos abusivos em relacionamentos e abordam questões sérias como violência e saúde mental, a ideia que a maior parte das pessoas têm desse tipo de livro é de uma mocinha meio destrambelhada que só pensa em encontrar um namorado e acaba achando um cara aparentemente horrível mas que na verdade é um príncipe. Não que haja nada de essencialmente errado com esse plot, inclusive tem livros ótimos que o usaram (alô, Bridget Jones!), mas o gênero vai bem além disso.

O problema da ideia negativa que as pessoas têm sobre a chick lit é que infelizmente tem muitos livros por aí perpetuando estereótipos ruins, usando os mesmos clichês de sempre e às vezes até fazendo humor com coisas que não são mais aceitáveis em 2019, como gordofobia e lgbtfobia. Há muitas questões problemáticas em relacionamento também que são frequentemente romantizadas – o mocinho ciumento que quer partir pra cima do cara que olhou pra mocinha não é fofo. Nem o carinha que era babaca mas “mudou pelo amor”. Relacionamentos entre chefe/subordinada ou professor/aluna também precisam ser trabalhados com muito muito muito cuidado.

É fundamental que as autoras tenham em mente as sensibilidades do público atual. Será mesmo que a melhor forma de justificar as ações de uma vilã é inveja da mocinha ou paixão não correspondida pelo mocinho? A protagonista não tem mesmo outras preocupações na vida além do romance com o carinha (não tem problemas na família? Crise no emprego ou faculdade? Aluguel pra pagar?)? É realmente necessário que a mocinha faça tantas burrices pro enredo funcionar ou pra história ser engraçada?

Também não é mais ok usar personagens gordos como alívio cômico nem usar nomes de comida para descrever personagens negros (nada de pele de caramelo ou de chocolate, por favor). Incluir minorias na história é ótimo, mas de uma forma que faça sentido e seja natural, não apenas para preencher a cota da diversidade. Se você vai falar de um grupo minoritário a que você não pertence, uma boa ideia é contratar um leitor sensível para tentar detectar possíveis questões problemáticas. Ah, e é sempre bom lembrar que estamos no Brasil e a população negra é muito maior do que a de pessoas ruivas com olhos cor de violeta, ok?
Mas existem muitos romances bons por aí que não recaem nesses estereótipos. Tem várias autoras brasileiras fazendo um lindo trabalho, como a Aimee Oliveira, a Clara Alves e a Larissa Siriani. Entre as estrangeiras, Mhairi McFarlane, Rainbow Rowell e as clássicas Marian Keyes e Sophie Kinsella estão entre as minhas preferidas. Então se você se decepcionou com um livro por ter algumas (ou todas) as questões que apontei acima, não desista ainda.

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