Da importância dos monstros – parte II

Imaginar-se outro é um exercício – desfazer as formas, os limites, levantar os véus que nublam a percepção e deixar-se afetar. A produção de alteridade passa por um deslocamento do self, do núcleo que supomos estável e essencial – ‘deslocamentos’ são movimentos tectônicos, vorazes, fractais – atravessar espelhos e comer cogumelos – produzir vulcões e erupções. “A pele é o mais profundo” – abandonar o humano e convocar os saberes animais. Sentir na pele.

Nas alternâncias febris e lisérgicas desse corpo outro, através dos diálogos improváveis com seres e objetos, nas inversões do espaço, Alice abre caminhos para outras e novas possibilidades estéticas e políticas – negociar com as identidades, não ser estanque, deixar-se contagiar pela loucura e a falta de sentido… lições para o século XXI.

Jogar xadrez – ser uma peça ao invés de manipulador ou manipulado.

A monstruosidade, como era compreendida e experimentada principalmente no século XIX e início do XX, contrai-se diante de um novo modelo de mundo que irrompe sob, sobre e através dos corpos: novas experiências e descobertas nos campos da medicina, ciência e biologia; a emergência de múltiplas tecnologias que desarrumam as práticas e os hábitos cotidianos; as transformações das cidades e a aceleração da percepção do tempo – devemos correr sem sair do lugar, correr cada vez mais rápido até ficarmos parados.

Desejamos os monstros, desejamos que as monstruosidades se infiltrem em nossas subjetividades e nos arranquem do comum; que nos profanem. Vampiros, bruxas, lobisomens, mutantes, ciborgues… monstros domesticados, destinados a salvar um mundo que os odeia: um mundo excessivamente humano.

Destruir, revelar – produzir apocalipses.

Pensar sobre monstros e monstruosidades é pensar sobre o Mesmo e o Outro; é pensar sobre nossa condição (aquilo que ainda nos mantém no registro do ‘humano’) e sobre o fora (aquilo que ameaça, seduz e nos afasta desse ‘humano’ tão enrijecido e pouco flexível). Des-domesticar a prática e a experiência, desaprender a ver. Ser menos humanista e mais alguma-outra-coisa-sem-nome; habitar os interstícios e as porosidades da alteridade – as profundidades e os subterrâneos: descer no buraco do coelho.

À medida que avançamos em narrativas pessoais, através da nossa própria vida, experiências, rupturas e agências dos corpos, cambiamos o sentido dos vetores dos nossos desejos, fantasias e imagens de reconhecimento, afeto e estímulo – passamos do Bem ao Mal, subversão do espelho e o pulo do gato: we’re all mad here.

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