Fantasmas – parte II

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{sequência da primeira parte – leia aqui}

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O portão estava descascado e enferrujado.

Ele segurou, sentindo a ferrugem nas palmas das mãos suadas, e empurrou até onde conseguiu; cruzou o breve jardim que o separava da porta principal.

Não tem ninguém, você sabe. Ninguém veio. Tá tudo apagado e você pode ir embora, viver sua vida como se nada disso tivesse acontecido, varrer pra debaixo do tapete – você é tão bom nisso!

Olhou para trás, como se alguém tivesse realmente falado isso pra ele, mas a rua continuava deserta, as folhas continuavam no chão, levemente animadas pela brisa, e a cidade, até onde ele sabia, continuava um cemitério. Ainda e sempre apenas as vozes em sua cabeça.

Pensou em acender um cigarro, já chegar fumando, mas os tempos eram outros – e não era perfeita, também, essa constatação? Não se podia mais fumar em lugares fechados ou abertos, as pessoas se incomodavam em outros níveis e o mundo era um carrossel instável à deriva, um gif (re)animado em eterno looping pós-morte repetindo as mesmas imagens ou o Mickey Mouse fugindo da morte…

 

A porta, com terríveis detalhes barrocos, se insinuava para cima dele como um homem gigante com intenções ambíguas. Podia ver dois olhos cubistas e uma boca saída de um pesadelo, os dentes retorcidos e a língua convidando para um beijo de madeira.

A porta estava aberta.

Empurrou.

Ao mesmo tempo, no mesmo instante, simultaneamente (como coisas que só acontecem em um livro ou filme), um trovão explodiu, fazendo o chão tremer,

um trovão, foi só

seguido por mais um relâmpago.

 

Se eu contasse isso pras pessoas…

 

O salão principal estava escuro e deserto. Cadáveres de plantas jaziam nos cantos do salão e perto das pesadas cortinas. Restos, ruínas e resíduos, oh my! O piso, de ladrilhos pretos e brancos, era um jogo de xadrez e ele tinha certeza que já havia visto aquele tipo de piso tantas vezes na vida, tantas e tantas vezes, mas ainda assim havia algo de desconcertante no efeito. Parado no meio desse piso ele, X., como se uma câmera de filmar percorresse todo o salão em 360º e retornasse para dentro dos seus olhos, boca, garganta…

 

Lá no fundo, para além do corredor infestado de quadros e objetos, o retângulo de uma porta se iluminava.

Devem estar na cozinha, claro, todas as festas acontecem na cozinha, eu nem sei porque as pessoas ainda se preocupam em ter salas…

Avançou.

Na penumbra, os quadros passavam como num filme de terror, pendurados no alto, velhos marinheiros e cortesãs, mulheres degolando homens, cavalos se alongando sobre precipícios, a tomada de um castelo, padres e bispos sussurrando, um lago e uma cabana, o busto de um velho careca com óculos de aro finíssimo e uns olhos que pareciam buracos.

Como naquele livro, exatamente como naquele livro, só que diferente… E se eu enfiar meus dedos nesses buracos…

                                                Você está, definitivamente, bem longe de Kansas, querido – e cada vez mais.

 

[continua]

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