Fique Comigo

“Tenho aqui um livro de uma autora africana sobre poligamia, você quer?” Só mesmo entre integrantes do Cheiro de Livro para se ter uma troca de mensagens que começa assim. Foi ao responder positivamente a essa pergunta que “Fique Comigo” (tradução : Marina Vargas) chegou às minhas mãos. O livro de estreia da nigeriana Ayòbámi Adébáyó fala muito mais do que só sobre poligamia e é desses livros que dá vontade de indicar para todo mundo.

Yejide e Akin estão casados há quatro anos e não tem filhos. Logo no começo do namoro Yejide deixou bem claro que não queria um casamento poligâmico mesmo tendo vindo de uma família poligâmica e a prática ser normal na cultura dos dois. Akin sucumbe a pressão feita por sua mãe e escolhe uma segunda esposa. Nada é mais importante do que a linhagem, do que ter filhos. É nesse momento em que se sente traída por Akin que começamos a acompanhar a vida do casal.

Tolamente achei que o livro seria sobre poligamia, não é, é sobre confiança, vergonha e tradição. Yejide perdeu a mãe no parto e foi criada em uma família poligâmica em que nenhuma madrasta a queria por perto, ela sempre quis ter um filho, algo seu, alguém que comprovasse a sua passagem pela terra, como ela mesmo diz no livro. A pressão da família de Akin e a chegada de Funmi, a segunda esposa, tira Yejide do seu prumo. Esse momento em que Yejide já apelou para a medicina, fé e rituais e mesmo assim não engravidou é o momento crucial da história. Akin não queria uma outra esposa, não tinha interesse em nenhuma outra mulher que não a sua e sua incapacidade de enfrentar a mãe e de ser honesto com a esposa levam a uma série de acontecimentos trágicos.

Eu não quero contar spoilers e acabar com viradas interessantes que Adébáyó consegue fazer na história. Yejide acaba tendo que conviver com uma relação poligâmica, mas não é a que ela esperava quando Funmi chegou a família. O livro tem capítulos contados em primeira pessoa por Yejide e Akin e é interessante comprar o sentimento de ambos em relação a poligamia, quão iguais são os sentimentos e como cada um lida com a situação. Nenhum dos dois lida muito bem, já vou logo avisando.

Toda a saga familiar de Akin e Yejide tem como pano de fundo a crise politica na Nigéria do final do século passado. Não são acontecimentos que mudem a vida dos personagens do livro, mas é interessante ver como pessoas comuns, com vidas comuns, acompanharam momentos tão decisivos e, muitas vezes, devastadores do país em que vivem.

Tenho que admitir que tentei entender o lado de Akin e encontrar algum tipo de simpatia por ele, mas foi bem difícil. Yejide não é nenhuma santa, ela toma atitudes, sem saber que são arquitetadas por Akin, que mostram que não há inocentes nessa história, mesmo assim a dor, o desespero e a raiva de Yejide são inteligíveis para mim e as mentiras e tramas de Akin não. Talvez porque tenham a ver com orgulho masculino e pouco a ver com o amor que ele afirma, a todo instante, ter por sua esposa.

“Fique Comigo” é um grande livro e irei indicar para todos aqui da Redação do Cheiro de Livro e fora daqui também.

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