It – A Coisa, o filme

Por Raphaela Ximenes e Carolina Pinho

Existia uma expectativa enorme em torno da nova adaptação do clássico de Stephen King “It – A Coisa” para às telas. O livro é composto por dois tempos de história distintos, separados por 27 anos, que se intercalam. O filme, dirigido por Andrés Muchietti e roteirizado por Andrés Muschietti, Gary Dauberman, Cary Fukunaga, Chase Palmer e David Kajganich, é apenas a primeira parte da adaptação e se concentra na infância dos protagonistas (veja o trailer).

A história é simples: Em outubro de 1988 (o filme traz a primeira parte da história para a década de 1980) o irmãozinho de Bill, Georgie, some na fictícia Derry, uma cidade no Maine. No verão seguinte mais crianças começam a desaparecer. Bill fica obcecado em descobrir o que aconteceu e ao lado de seus amigos, conhecidos como Losers Club (traduzido como o Clube dos Otários), partem em uma jornada que os leva a enfrentar o palhaço Pennywise.

A primeira adaptação de “IT – A Coisa” foi uma série para a TV americana. A Série é bem ruim, mas cristalizou no imaginário dos fãs e leigos a imagem de Pennywise, criada maravilhosamente por Tim Curry. Essa caracterização é o único elemento que sobreviveu nessa chegada da história aos cinemas. A maquiagem de Bill Skarsgård  lembra o de Curry e mesmo assim é um palhaço diferente e tão aterrorizante quanto. Um dos pontos altos do filme, definitivamente. Os fãs que estavam apreensivos não terão do que se queixar. O curioso é que não há uma descrição definitiva sobre o palhaço no livro, mas há o entendimento de que ele é antigo, do início do Século XX, e por isso há quem acredite que a caracterização de Skarsgård chegue mais próxima do que Stephen King imaginou. Mas o Pennywise de Tim Curry é icônico e, no fim, o “novo” palhaço é muito bem construído e com nítida referência ao “antigo”, o que parecer ser uma homenagem.

Toda a atmosfera do filme é sombria e tem um clima de terror dos anos 1980 com alguns sustos, muitos momentos de nervoso e, um tanto quanto, nojentos. Aliás, toda a caracterização da ambientação nos anos 1980 é ótima e funciona bem, das roupas às referencias a New Kids on the Block e toda a trilha sonora que tem desde The Cure a XTC, passando por Anthrax e The Cult. Apesar do elenco ser formado por crianças entrando na adolescência, os temas são bem adultos, como abuso, perda, bullying, em um nível bem violento, e rejeição, todas questões bem reais que sustentam a metáfora do palhaço aterrorizante que se alimenta do medo, ponto comum nos livro de King, mostrar uma realidade bem feia que é o verdadeiro monstro da história.

O ponto alto do filme é a interação entre os integrantes do Losers Club. O elenco foi muito bem escolhido e é impossível não se envolver com aqueles pré-adolescentes, não se reconhecer nas brincadeiras, nas conversas, nas piadas. É um típico grupo de amigos passando o verão juntos. O único problema é que mesmo com duas horas e 15 minutos de filme, o roteiro não nos permite conhecer melhor cada um deles. O foco é bem maior em dois deles e o restante, principalmente o Mike, que tem um passado que deveria ser mais explorado,  é colocado quase como coadjuvante menor, além de mudar o destino de alguns personagens chave, o que causa desconforto, principalmente nos fãs que conhecem a importância de cada um deles no que será o segundo capítulo dessa história. Talvez uma decisão medrosa do diretor que ainda não tinha certeza de que haveria um segundo capítulo, esse segundo filme só foi confirmado essa semana, um dia antes da estreia de It nos EUA.

É uma boa adaptação de metade do livro de King e mesmo assim é irregular, principalmente na introdução dos integrantes do Losers Club, mesmo que a dinâmica entre eles conquiste com facilidade os espectadores. Houve uma preocupação maior em contar a mitologia por trás do Pennywise, transformando ele no ponto central da história, quando na verdade o ponto focal é a vida e as agruras do Losers Club. O palhaço é apenas a manifestação dos medos e inseguranças dessas crianças e de toda a cidade de Derry. Talvez esse seja um erro constante em adaptações de King para o cinema, a preocupação em mostrar o terror sem o entendimento de que o maior terror é a vida real e como ele afeta os personagens. Ainda assim, essa nova adaptação é um bom filme de terror, com uma história interessante que sabe prender a atenção, sem a preocupação de ter sustos fáceis. Sem dúvida, é um bom prólogo para o que ainda está por vir.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *