O Pintassilgo

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Trauma, luto e obsessão são o tripé que sustenta esse ótimo livro de Donna Tartt. 

Recebemos o terceiro livro de Donna Tartt ao visitarmos a Companhia das Letras durante a Bienal do Livro de São Paulo, devo admitir que o livro ainda não estava na minha lista de prioridades de leitura mas ele estava lá e resolvi me atirar a sua leitura. Melhor decisão literária do ano foi me agarrar as mais de 700 páginas de “O Pintassilgo”. A sinopse bem resumida do livro é Theo Decker é um sobrevivente de um atentado terrorista em Nova York que nos conta em primeira pessoa os últimos 14 anos de sua vida.

Theo tem 13 anos quando sobrevive a um atentado terrorista no Metropolitan Museum, em Nova York, sua mãe morre na explosão e ele sai do museu carregando a pintura que dá nome ao livro, “Pintassilgo”, de Carel Fabritius. A cena de um menino de 13 anos acordando em meio a escombros, o seu atordoamento, o medo é brilhantemente descrita, é daqueles momentos em que se lê e se sabe que está lendo algo fantástico.O livro estava indo bem até esse momento, estava gostando da leitura, mas foi nesse capítulo que ele me fisgou de verdade e passou para a categoria de livros que não consigo largar, dos livros que devoro com avidez e não mais uma simples leitura. É nesse começo de livro também que começam os acasos e as sortes de Theo. Ninguém percebe que ele saiu do museu, ninguém vê que ele carrega uma obra de 1654 em uma sacola. O livro tem vários desses momentos de sorte e acaso, tantos que me fez lembrar um pouco de “Match Point”, de Woody Allen.

A explosão, a culpa indevida pela morte da mãe e a obsessão pelo quadro marcam toda a trajetória do protagonista. Theo não tem uma vida fácil, depois da morte da mãe, passa um tempo vivendo com a família rica de um amigo e depois, com o reaparecimento de seu pai, se muda para Las Vegas. Em Vegas a face destrutiva dele toma forma e é alimentada por um pai vigarista que vive de apostas e um amigo polonês que passa os dias bebendo e se drogando. Theo não perdoa o pai por ter abandonado ele e a mãe e ao mesmo tempo se mantém alheio a sua jogatina, seus altos e baixos. É uma relação delicada entre pai e filho, uma relação quase inexistente onde um é incapaz de ver o outro e Theo, com o seu trauma, se mantém a margem. É nesse espaço que a camaradagem com Boris, o amigo polonês, se instala. Boris é o destemido, o que arrisca, é o oposto de Theo, deprimido e consumido pelo medo.

Os anos em Vegas são passados com álcool, drogas e pequenos crimes. Boris o introduz a drogas e álcool, mas os crimes são anteriores a essa vida, os crimes de Theo começam ainda com a sua mãe viva. O mergulho dele nas drogas e como ele passa os dias consumido pelo medo e pelo trauma, como deixa de participar da vida é só um espectador, não um participante. Vegas é só um prelúdio do que será a vida de Theo adulto em Nova York.

Theo volta a Nova York ainda adolescente e segue a vida como fazia em Las Vegas. Morando com o Hobie, um antiquário que conhece logo depois de sobreviver a explosão, Theo se interessa e aprendero oficio de restaurar móveis. A vida se estabiliza um pouco e nosso narrador nos mostra que continua o mesmo, incapaz de viver sem o auxilio de drogas e álcool e cometendo crimes, nem tão pequenos assim, é a hora do submundo das artes trazendo mais cores a história. É nesse momento que o livro torna-se um tanto quanto rocambolesco, é também quando o Pintassilgo e o seu roubo voltam a ser tema central da narrativa. Se eu já tinha achado que o roubo do quadro beirava ao inacreditável, o que acontece com Theo desde o momento em que reencontra Boris até o final do livro é a volta dos acasos e sortes ainda mais gritantes, é o momento de suspension of disbelief e isso não prejudica de forma alguma a leitura, pelo contrario, agrega. Nesse momento já estava tão envolvida com Theo e sua vida meio desgraçada e deprimida que me chamou menos atenção do que no começo da historia, nesse ponto, no terço final, já é parte da narrativa. Woody Allen veio mais uma vez a minha cabeça nesse momento, mas com outro filme, “Os Trapaceiros”.

Só não posso dizer que nem senti as 700 páginas passarem porque a dor no braço de segurar o livro existiu. Tartt consegue envolver o leitor, fazer, mesmo das partes mais paradas da vida de seu protagonista, algo intenso de se ler. O livro tem um ritmo constante e ao mesmo tempo intenso, cada momento importa no quadro geral que ela vai montando. O final do livro, não se preocupe não é spoiler, é uma ótima analise sobre o que representa a arte e como ela afeta cada um de um forma diferente. Mesmo saindo um pouco do tom do romance é um desfecho ótimo. Li a ultima página e fui ao google buscar uma imagem da pintura, assim como Theo fiquei admirando o pequeno pássaro em seus mínimos detalhes, deu vontade de ir ao Mauritshuis na Holanda só para vê-la de perto. Passei dias vendo só um pedacinho dela na capa do livro e lendo descrições detalhadas dela nas páginas, vê-la por inteiro depois de tanto imagina-la foi uma experiência, dessas que Tartt fala ao longo do livro (veja a reprodução da pintura aqui).

“O Pintassilgo” é um enorme sucesso de vendas no mundo, teve criticas excelentes e outras nem tanto e ganhou o prêmio Pulitzer. É um grande livro que merece todos os louros que recebeu. Minha lista de livros para ler acabou de ganhar mais dois títulos, os dois outros livros de Tartt, ela lança um livro a cada década mais ou menos. Quero ler sua obra toda e recomendo muito “O Pintassilgo”. Uma ótima leitura.

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