O Reino das Vozes que Não se Calam

reinoA primeira coisa a ser notada no livro “O Reino das Vozes que Não se Calam” (selo Fantástica da Editora Rocco) é a capa. Além de muito bonita, ela traz uma das autoras – a atriz e cantora, Sophia Abrahão – como parte principal do design. Estranho? Sim e não. Eu explico.

O livro é o fruto da parceria entre a atriz e a escritora Carolina Munhóz. A “rebelde” e a “fada” se uniram para escrever uma história para jovens que envolve temas reais e seres fantasiosos e que traz um pouco do que ambas viveram quando mais novas. Confesso que assim que peguei o livro, estava esperando uma leitura leve, repleta de fadas e gnomos e músicas e …. me enganei. E fiquei feliz por isso.

“O Reino das Vozes que Não se Calam” é protagonizado por Sophie (notem a semelhança com o nome de uma das autoras), uma menina ruiva e extremamente magra que tem uma visão bastante única sobre tudo e todos. Sophie sofre bullying na escola por ser magra demais, diferente demais. Ela tem um humor inteligente e ácido, usa roupas autênticas, mas que misturam uma vontade de querer se expressar e se esconder. Sophie é única, mas não é aceita por isso e – pior – não se aceita por isso.

Narrado em terceira pessoa, o livro traz uma visão mais completa sobre o que todos os personagens estão sentindo e pensando, mas acompanhamos mais Sophie, nossa protagonista. Nas primeiras páginas, achei Sophie dramática demais. Tudo era uma tempestade em um copo d’água, tudo era oito ou oitenta e quando ela devia falar, calava. E a julguei como se não houvesse amanhã. Me deu muita vontade de gritar “AH PELO AMOR DE DEUS! PARA COM ESSA TRAGÉDIA GREGA! VOCÊ É ÓTIMA E NÃO PRECISA DISSO!” e lá no meio do livro, logo depois de Sophie voltar do Reino pela primeira vez, entendi: eu estava parecendo com uma das pessoas que fazia a jovem sofrer. Eu estava julgando sem conhecer, sem entender, levando em consideração as minhas experiências e personalidade. E isso era sobre uma personagem em um livro, mas quantas vezes fazemos isso na vida fora das páginas?

Sophie – exausta por ser julgada e por se julgar demais – vai parar no Reino, um lugar mágico onde ela é uma princesa. Lá, em meio a criaturas como fadas e gatos falantes, Sophie se sente amada incondicionalmente, coisa que, embora saiba que ocorre em seu mundo, com sua família, não sente da mesma forma. E como isso foi triste de acompanhar.

No decorrer do livro, Sophie divide sua vida acordada – escola, família, um carinha novo que se interessa por ela – e sua vida dormindo – o Reino mágico onde as vozes não se calam, lugar onde moram os Tirus e os Tirulipos (nome dos fãs da atriz, cantora e, agora, autora. Homenagem fofa!). Notem que não usei termos como “real” e “sonho” porque independente de ser tangível ou não: se algo é sentido e importa, considero real.

O conflito na vida de Sophie é simples e complexo: ela só quer ser feliz. Uma menina amada pela família, inteligente, mas que se cobra além da conta, que é julgada por todos por sua aparência e que tem uma alma de artista, só quer o que todos queremos: ser feliz. Ela sente demais e não sabe lidar com isso, mas aprende com a ajuda dos habitantes do Reino – entre eles Sycreth, uma jovem de cabelos louros que conhece os segredos de todos os habitantes e que tem uma tatuagem específica na mão. Notem a semelhança com a Carol!

“O Reino das Vozes que Não se Calam” não é um livro “bobinho”. Ele usa imagens lindas e situações fortes para abordar temas reais e doloridos como bullying, distúrbio alimentar, suicídio. Claro que não sou mais o público-alvo desse tipo de literatura, mas também acho que é justamente por isso tão importante ler. Crescemos e as vezes esquecemos a pressão que existe na vida de um adolescente. Quando jovens, passamos por experiências marcantes que ficam conosco para a vida toda, sendo elas positivas ou negativas. Carol e Sophia passaram por bullying, por insegurança e isso as marcou tanto que está tudo nas páginas para, quem sabe, ajudar alguém que esteja passando pelo mesmo. O livro tem toques biográficos (por isso a capa), o que, ao meu ver, reforça seu propósito e efeito nos leitores.

“O Reino das Vozes que Não se Calam” mostra uma Carolina Munhóz mais madura como escritora e abre um debate importante sobre o perdão, sobre a força que temos dentro de nós para descobrir o caminho que devemos seguir e que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de maturidade. O livro aborda a importância de darmos valor a nós mesmos, de abraçar nossa individualidade e de não nos anularmos a favor da massa. Nossa voz importa e não deve ser silenciada. O importante é não calar.

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