Sexo, Pandemia e Rock’n’Roll

Nem a própria Sarah Pinsker podia imaginar o quanto este primeiro romance seria oportuno quando publicou A Song for a New Day em setembro passado. A história é uma distopia num futuro próximo em que aglomerações são proibidas depois de uma série de atentados terroristas e de uma… pandemia. Os atentados e a doença passam, mas as restrições (inicialmente justificadas, necessárias) ficam, os cidadãos se acomodam, e as corporações expolram o medo e o isolamento das pessoas para faturar. 

Ela conta que pensou mais no terrorismo. Tinha acabado de escrever o capítulo sobre o atentado que motiva as leis quando aconteceram os atentados de Paris no Stade de France e no Bataclan em 2015, e chegou a pensar em reescrever o trecho (no livro é num estádio de baseball). A ideia de incluir uma doença altamente contagiosa veio depois. A história é contada alternadamente do ponto de vista de Luce, uma cantora que se lembra de como tudo era antes e que faz shows clandestinos, e de Rosemary, uma jovem que cresceu sob as restrições, e que recruta artistas para uma empresa de mídia que faz shows em realidade virtual. Rosemary está acostumada com esse status quo, e não vê nada de errado nas ações das corporações.

Sarah Pinsker constrói bem esse mundo pós-isolamento. O comércio é quase todo online, controlado por outra megaempresa que faz as entregas com drones. As empresas rastreiam todos os gostos e costumes dos usuários. Ela descreve cidades com prédios abandonados, lojas fechadas, mas também bairros com pequenas lojas que funcionam sem reunir muito público. Restaurantes com cabines de isolamento para evitar contato. E Rosemary inicialmente está animada quando deixa o trabalho em home office e sai para as ruas. Mas logo se assusta quando vê um homem espirrar na calçada, e tem uma crise de pânico no primeiro show ao vivo a que assiste – uma “multidão” de umas vinte pessoas num porão.

Sarah Pinsker

Sarah Pinsker é música e até criou uma playlist no Spotify como “trilha sonora” pro livro. Tem Patti Smith, Public Enemy, Leonard Cohen, Janelle Monáe e Gil Scott-Heron, entre outros.

Pinsker não é contra o isolamento em si como resposta inicial ao terrorismo e à pandemia. Em entrevista recente, ela diz que o isolamento que está acontecendo agora não é fruto do medo, vem de um senso de comunidade, de proteção aos demais. Os shows que artistas têm feito mundo afora vêm desse senso de união, de solidariedade. A questão no livro é como o medo é explorado e manipulado depois para criar uma sociedade de consumo sem questionamento. A preocupação com perigos reais não pode se transformar em complacência e alienação. “Todo mundo tem medo; o que importa é o que você faz com esse medo. O mundo ainda não acabou,” diz Luce a certa altura. 

Me perguntaram, “mas você vai recomendar justamente um livro sobre pandemia pra ler na pandemia?” Sim, por isso mesmo. Porque precisamos pensar agora no mundo que queremos pra depois.

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