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A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes

Dez anos depois de terminar a série, Suzanne Collins volta ao mundo de Jogos Vorazes. Desta vez, pra contar a história de como tudo começou. Estamos em Panem, dez anos depois do fim da Guerra e da criação dos Jogos (portanto 64 anos antes de Jogos Vorazes). Mas ainda não é aquela versão mega-reality show que conhecemos. Os escolhidos são simplesmente lançados numa arena para lutar até a morte. Eis que Coriolanus Snow – que conhecemos como o cruel Presidente Snow da trilogia original – tem uma ideia. Ele precisa desesperadamente se promover – e os Jogos podem servir como plataforma.

É sempre difícil voltar e escrever a história anterior a uma série de sucesso, já que o leitor de certa forma já sabe como vai acabar. E mais difícil ainda criar empatia pelo vilão daquela história (George Lucas que o diga). 

Em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes (Rocco, trad. Regiane Winarski), encontramos um Cornelius Snow aos 18 anos, parte da elite, mas vivendo de aparências – a família perdeu tudo na Guerra. A vida na capital é dura, com a escassez do pós-guerra, mas nada que se compare aos distritos. Coriolanus Snow não começa mau. Ele está pressionado, com péssimas perspectivas, quando é escolhido para ser mentor de Lucy Gray, a tributo do Distrito 12. O grande mérito de Suzanne Collins neste livro é o retrato complexo que ela traça de Snow. Ele é um privilegiado, mas não se sente assim – pelo contrário, sente-se perseguido. Em todas as situações, sempre pensa em como ELE está sendo prejudicado pelos outros, e este é um dos motivos das escolhas que vão levá-lo a se tornar um ditador. Mesmo no terço final do livro, quando vê de perto a vida no Distrito 12, ele não consegue se colocar no lugar do outro, entender o sofrimento do outro. Ele considera que a culpa do sofrimento dos moradores é deles mesmos, não de um sistema opressor. É interessante como a autora mostra Snow a todo tempo buscando justificar esse sistema, como forma de controle em oposição à desordem e à violência que ele acredita existiriam sem o governo forte da capital. Ele não age por crueldade – acredita realmente estar fazendo o que é certo. E isso é que é assustador. Collins toca na ferida – os regimes autoritários se mantêm alimentando essa crença e explorando o medo do que seria supostamente um caos.

Suzanne Collins

Collins também conta um pouco mais do passado do Distrito 12, com referências a coisas que vimos na trilogia original. E cria também outra personagem feminina fascinante em Lucy Gray, a jovem tributo que assim como Katniss encanta a capital. E de quebra deixa um final que com certeza vai ser debatido por muito tempo pelos fãs.

A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes não deixa de ser um livro jovem adulto, como os anteriores, mas mostra como esse é um rótulo enganador, porque é um livro maduro que trata esse tema tão atual com toda a seriedade e reflexão que merece.

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