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Arrancados da Terra

Sou uma leitora assídua dos trabalhos de Lira Neto desde que li a trilogia biográfica sobre Getúlio Vargas (aqui, aqui e aqui). Desde então passei a sempre aguardar o próximo lançamento e colocar direto na lista de compras e leituras, foi assim que “Arrancados da Terra” foi adquirido na pré-venda. É verdade que os tempos pandêmicos colocaram alguns obstáculos para que lesse com a concentração necessária, mas a história de como judeus portugueses chegaram a Nova York vale a jornada.

Como Lira Neto fala logo no início sempre existiu essa história de que portugueses fugidos de Recife depois da derrota dos Holandeses teriam seguido para Nova York. O que o autor faz aqui é, documentalmente, tentar traçar a vida e as relações familiares desse judeu portugueses que foram expulsos de Portugal, acharam um pouso nos países baixos, se estabeleceram em Recife e foram novamente expulsos até chegar a Nova Amsterdã, ou como ela é conhecida hoje, Nova York.

“Arrancados da Terra” é antes de tudo uma história de perseguição, intolerância e dinheiro. O primeiro terço do livro, com Portugal sob o julgo dos reis católicos, retrata os desmandos da inquisição e os horrores das torturas, execuções e delações. Não se limita ao período da união Ibérica, Lira fala sobre como os judeus tiveram que resistir em tempos mais ou menos tolerantes ao longo da história portuguesa, mas é no período em que o país estava subordinado a Espanha que se concentram os relatos. Os documentos da inquisição são horríveis e as práticas contra os cristãos novos me fizeram para a leitura aqui e ali, saber que horrores eram cometidos e ler com mais detalhes sobre eles são coisas bem distintas.

A fuga de Portugal, o estabelecimento de uma forte comunidade de judeus portugueses nos Países Baixos e a subsequente migração para Recife, então sob domínio da Companhia das Índias Ocidentais, formam o segundo e mais extenso terço do livro. Aqui Lira reconstrói os anos de Maurício de Nassau em Pernambuco, a conquista da região, os personagens que lutaram de ambos os lados e por ambos os lados. É um parte da nossa história bem pouco explorada e que merecia mais livros como esse. Tenho que dizer que nessa parte do livro me deu uma vontade enorme de reler “Calabar”, peça de teatro escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra, já até tirei da estante. Voltando ao tema desse texto, é aqui, para mim, a parte mais interessante do livro, a construção de uma comunidade mais tolerante com diferentes religiões e como interesses econômicos jogaram tudo por terra.

O terço final do livro relata, basicamente, a fuga dessa comunidade judaica. Diferente do que imaginava eles não tinham em mente chegar a Nova Amsterdã, eles queriam voltar a Europa mas uma série de intempéries ainda não muito esclarecidas os jogaram em direção ao que hoje chamamos de Estados Unidos. Esse não é um assunto de que tivesse grande conhecimento prévio, mas o que está nas páginas é que nada do que é relatado é algo de muito novo ou inédito, é apenas um relato envolvente, baseado em documentação histórica, do que aconteceu, com algumas lacunas. A parte importante é que é uma narrativa interessante e envolvente, com tudo que já li de Lira Neto.

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