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Nós Somos a Cidade

Quem vive nas cidades grandes pode já ter pensado nisso: as cidades como seres vivos, com alma e personalidade próprias. Em Nós Somos a Cidade (Suma, tradução de Helen Pandolfi), N. K. Jemisin vai mais além: ela imagina que a certa altura de sua existência, as grandes metrópoles adquirem mesmo vida, e passam a ter uma manifestação física, um avatar humano, que as representa. O despertar de Nova York já havia sido narrado no conto The City Born Great, de 2016, mas não é preciso ter lido o conto para entender o novo livro. Agora, o avatar de Nova York, um grafiteiro, está inconsciente depois de um confronto com uma entidade que tentava impedir esse despertar. E diante de uma nova ameaça cósmica, a cidade precisa ser defendida por cinco outras pessoas que representam as regiões que formam Nova York: Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Staten Island.

Cada um tem características e personalidade diferentes, e Jemisin (que vive em NY) retrata bem as rivalidades e desentendimentos entre as regiões. Cada um tem personalidade e etnias bem distintas. Manhattan é meio arrogante e individualista, e tem um passado misterioso. O Bronx tem origem nativa e é uma lésbica durona (é de longe a melhor personagem), Brooklyn é uma ex-rapper que virou líder comunitária, Queens é uma jovem matemática de família indiana, e Staten Island é uma jovem paparicada e preconceituosa.

Elas enfrentam o mal cósmico com a ajuda de uma cidade um pouco mais velha que Nova York: São Paulo. Um rapaz da periferia da capital paulista, que fuma um cigarro atrás do outro, e que vem mostrar o caminho das pedras à “jovem” metrópole americana. No posfácio, Jemisin se desculpa por não ter podido vir pessoalmente ao Brasil para conhecer a cidade, mas até que se sai bem. Num momento em que São Paulo é atacado e quase destruído, ele é salvo com uma receita bem brasileira.

Indicada novamente ao prêmio Hugo

No centro de tudo, Nós Somos a Cidade é não só uma declaração de amor a Nova York, mas  principalmente uma defesa ferrenha da diversidade dos povos que convivem ali. O mal cósmico que ataca a cidade é uma referência direta e explícita a H. P. Lovecraft – o mestre do terror que era racista e que morou algum tempo em Nova York, mas que detestava a miscigenação racial da cidade. Jemisin cita nominalmente algumas histórias de Lovecraft, incluindo “O Horror em Red Hook”, em que o autor falava com desprezo dos trabalhadores imigrantes de uma parte do Brooklyn. No fim, Nós Somos a Cidade é mais que uma fantasia urbana envolvente, faz parte de toda uma discussão sobre a diversidade e a inclusão na arte.

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