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O Último dos Moicanos ‘filme X livro’

Sabe aqueles filmes que marcam a infância e grudam no passado como Silver Tape? Como uma boa cinéfila que sou, desde pequena, eu tenho uma lista enorme desses filmes. Quando penso nos principais, naqueles que moldaram meu caráter, claro que a lista diminui, mas ainda assim é bastante para uma criança. Não vou citar todos aqui no post de hoje, para não perder o foco, mas quero falar de um deles, que teve uma importância extraordinária na minha formação como pessoa: O Último dos Moicanos.

Eu devo ter visto uma centena de vezes esse filme durante toda a minha vida. Pode culpar o Michael Mann (diretor), pode culpar a trilha sonora ou mais certamente o Daniel Day-Lewis, um dos crushes mais fortes da minha juventude, mas a verdade é que a narrativa toda é incrível. Homem branco criado pelos índios tentando defender o pouco que restou de sua tribo com questões de identidade e pertencimento? É exatamente o tipo da temática que sempre me chamou atenção. Não tinha como não gostar.

No entanto, eu nunca tinha parado para ler o livro, apesar de saber há anos que o filme era uma adaptação do livro homônimo de James Fenimore Cooper, publicado em 1826. Eu não fazia ideia do que esperar, para ser sincera. Preferi não pesquisar nada antes da leitura. Então, vocês podem imaginar minha surpresa, quem já leu a obra, quando vi que se tratava mais de uma ficção histórica geográfica e representativa de uma guerra do que qualquer outra coisa. Os acontecimentos se passam em 1757 durante a guerra entre os britânicos e franceses nas colônias da América do Norte.

Não tem romance, não tem Daniel Day-Lewis nem palavras hollywoodianas “I will find you”. O que é bom, na verdade, porque o tom do livro é completamente diferente, mas confesso que a romantização, todo aquele drama e tensão sexual fez muita falta. O livro é bem mais cru e frio, focado em mostrar as divisões territoriais e culturais das tribos indígenas, a ambientação do que hoje é, se não me engano, o Canadá, e os conflitos enraizados e engessados dos britânicos contra os franceses. Alguns personagens até têm os mesmos nomes no filme, mas seus papéis são bem diferentes e por vezes até trocados. Acho que o único personagem que não sofreu tanta alteração de um formato para o outro foi o índio Magua, espião a serviço dos franceses, que aliás é interpretado por Wes Studi, um ator que adoro – de feição extremamente marcante e que fez também Dança com Lobos.

Se eu não me engano, li a edição com tradução de Agripino Grieco, publicada em 1935, e isso é importante dizer aqui, porque faz toda a diferença na leitura. Estamos falando de uma linguagem dos anos 1826, misturada a uma narrativa até um tanto poética do crítico e tradutor. Agripino A versão inglesa, apesar de eu não ter lido toda, apenas alguns trechos para conferência, me pareceu bem menos literária, mas ainda assim encadeada à época.

A história não me pegou, infelizmente. Talvez eu estivesse esperando mais uma aventura e algo bem ficcional em vez de um relato de conflitos de guerra com um personagem ou outro fictício no meio do caminho. Talvez eu precisasse mais de ritmo, de conflitos internos, dramas pessoais, não sei. Sei que é um sacrilégio falar mal de um livro tão importante para a história da literatura norte-americana, mas eu não consegui me desligar do filme, da importância que ele teve para mim e da narrativa emocionante a que Michael Mann me presenteou. Ele certamente não poderia ter adaptado o livro de outra forma, sem as radicais mudanças que fez para a telona, ou não teria conseguido metade do sucesso que conseguiu com o filme de 1992.

Para não dizer que odiei o livro nem nada, porque nem seria verdade, embora eu admita ter me arrastado para terminar, destaco aqui o meu respeito e admiração por Copper pela captura da cultura indígena norte-americana, principalmente através dos diálogos. A visão de mundo de quase todos os personagens ficou bem clara para mim, a cultura, as intenções, até a política de cada um, e sem precisar ser descritivo quanto a tudo isso. Isso não é nada fácil de fazer.

Para fechar, eu recomendo a leitura para fins de comparação de narrativa e de adaptação, e por ser um marco no gênero do herói norte-americano, mas definitivamente, e de longe, o filme me trouxe muito mais emoção, questionamentos e reflexões (além dos suspiros apaixonados graças a Daniel Day-Lewis, hihi!) do que o livro. E este, meus amigos, é um caso raríssimo.

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