Livros

Poe, o cientista

Quando a gente pensa que já sabe tudo (ou quase) sobre um escritor que morreu há mais de 170 anos, surgem biografias que trazem um novo olhar sobre a vida e a obra dele. 

Ano passado, foi a vez de The Man of the Crowd: Edgar Allan Poe and the City (O Homem da Multidão: Edgar Allan Poe e a Cidade), de Scott Peeples. O livro analisa a influência que as cidades em que Poe viveu (Richmond, Baltimore, Filadélfia e Nova York) exerceram sobre a obra dele.

Agora temos o excelente The Reason for the Darkness of the Night: Edgar Allan Poe and the Forging of American Science (A Razão para a Escuridão da Noite: Edgar Allan Poe e a Construção da Ciência Americana), De John Tresch. Tresch é um historiador especializado na história da ciência e na relação entre ciência e cultura no século XIX. Nesse livro, além de narrar a vida de Poe, ele examina como o pensamento científico permeia a obra dele – seja nos consagrados contos de mistério e terror, seja na extensa produção de artigos para revistas. 

Nos artigos, Poe discutiu descobertas científicas da época, as carreiras de cientistas importantes, e também expôs charlatães e suas farsas.

Na ficção, o pensamento científico está presente nas aventuras mais fantásticas, e principalmente nos mistérios policiais como os do detetive C. Auguste Dupin, que mais tarde serviria de inspiração para Arthur Conan Doyle criar Sherlock Holmes. E se Mary Shelley é a “mãe” da Ficção Científica, Poe pode ser o pai – Júlio Verne citava Poe como inspiração, e escreveu um de seus romances como resposta direta à Narrativa de Arthur Gordon Pym, de Poe.

Se eu falei no começo que já sabemos quase tudo sobre Poe, é porque resta o mistério da morte dele. Ao longo do livro,Tresch evita a visão distorcida promovida por alguns de uma alma atormentada, acabada na sarjeta. Ele narra os últimos momentos de Poe com cuidado, com relatos de testemunhas, sem entrar em especulações sensacionalistas. Sim, Poe parecia embriagado, mas alguns desses relatos deixam transparecer que ele já podia estar doente. Esse continua sendo um mistério que a ciência não conseguiu resolver.

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