Doutor Sono

Doutor-SonoQuando em 1977 Stephen King lançou “O Iluminado” estava começando sua carreira. Era um escritor com vários contos publicados em revistas e apenas dois outros romances nas livrarias: “Salem’s Lot” e “Carrie”, que salvou sua vida ao lado da esposa Tabitha e seus filhos, Naomi e Joe. Foi “O Iluminado” seu primeiro best-seller e o livro que o consagrou como um grande autor de terror. Naquela época, King lidava com problemas com álcool e drogas, para ele eram o combustível necessário para manter sua mente desperta o dia inteiro, quando varava noites escrevendo e criando mundos assustadores. Essa combinação e uma visita dele com sua família a um antigo hotel perto do inverno, serviram de inspiração para o, talvez, seu livro mais famoso, principalmente para a criação de Jack Torrance, o pai de família que fica responsável pelo Hotel Overlook durante o rigoroso inverno no Colorado. Jack, assim como King, é um escritor viciado, que precisa desse emprego para manter a família, sua esposa Wendy e seu filho Danny, que possui poderes paranormais. O macabro hotel está repleto de fantasmas e uma energia negativa que logo contamina Jack, que perde o controle.

O Iluminado” é um livro pesado com personagens tentando sobreviver a um período muito ruim de suas vidas, uma vida que quase é a mesma que King teve. Essa é a sua maior qualidade, transformar a vida cotidiana, os problemas comuns, em histórias de terror. O medo está no fato de Jack não conseguir se livrar do vício, de não conseguir um emprego, de ter que sustentar uma família sem recursos.

Então, 36 anos depois, King decidiu se redimir com Danny Torrance, o filho de Jack, que precisou enfrentar o pai e todos os terrores do Overlook durante sua infância. O autor decidiu contar o que aconteceu a ele e como vivia com seu “poder”, no livro Doutor Sono (2013, tradução Roberto Grey, Editora Suma de Letras, 480 páginas).

Logo no prólogo o livro nos mostra como Wendy e Danny sobreviveram ao Overlook, vivendo em um trailer. Mas o menino continua sendo perturbado por pesadelos, visões e vozes, além de alguns fantasmas do Hotel que continuam ao seu redor. Dick Halloran, o antigo chef do Overlook, faz uma participação especial, ainda como mentor de Danny, para ensina-lo a como lidar com sua iluminação. O menino aprende a guardar seus medos e fantasmas num baú mental. Durante um bom tempo, Danny, agora Dan, médico, percorre seus dias lidando com alcoolismo e drogas, como forma de abafar seu poder. Sem emprego, vivendo de bicos e mudando de cidade em cidade, Dan chega ao fundo do poço e foge para New Hampshire, onde começa a trabalhar como ajudante numa atração de parque de diversões e passa a frequentar o AA. É o início de 2001 e perto dali nasce Abra Stone, uma menininha muito especial com o dom da iluminação, que se manifesta desde seus primeiros dias de vida.

12 anos se passam e Dan agora trabalha na casa de repouso local, livre de seus vícios, o médico fica famoso por a tornar menos traumática a hora da morte para aqueles que estão morrendo, por isso ganha o apelido de “Doutor Sono”. Ao mesmo tempo, Abra tem uma vida normal como adolescente, tentando esconder seus poderes, que são muito mais fortes que os de Dan. O problema é que existe um grupo de seres sobrenaturais imortais, o Verdadeiro Nó, formado por vampiros de energia que se alimentam da energia de crianças paranormais. A líder do grupo, Rose, a Cartola, descobre que Abra é muito poderosa e que seus poderes alimentarão todo o grupo, deixando-os saciados por muito tempo. O pediatra de Abra conta sobre os poderes da menina para Dan, que os aproxima, levando o médico a se unir a menina contra o Verdadeiro Nó, em uma batalha final entre o Bem e o Mal.

Não há a mínima dúvida que Stephen King escreveu Doutor Sono como uma forma de se redimir com Danny Torrance, o menino que sofreu tanto em suas mãos durante “O Iluminado”. Afinal ele é um novo escritor, livre de seus próprios demônios, por isso, seria justo que ele desse a chance a Danny de se livrar dos seus também. Ver, no início do livro, Danny se tornar Jack é assustador, como um deja vu ruim, que não queremos reviver, mas o ponto de ruptura do personagem é forte e traumatizante tanto para o ele quanto para o leitor. O momento em que Dan acorda no apartamento de uma mulher viciada, com pouco dinheiro e um menininho, quase bebe ainda, brincando com o resto de cocaína que ficou em cima da mesa da sala, é uma cena muito pesada até mesmo para os mais fervorosos fãs do autor. Definitivamente King sabe muito bem como tornar a vida real em um pesadelo pior que aqueles já criados por ele. Essa cena persegue e atormenta Dan muito mais do que a mulher morta na banheira do quarto 217 ou qualquer outro fantasma do Overlook.

Abra Stone, a fofa e esperta menina iluminada de 12 anos, é a parte do King que não envelhece, que se mantém atual e completamente em sintonia com o mundo que vivemos. Os gostos de Abra, as citações a cultura pop de hoje, como “Game of Thrones” e “Os Vingadores”, são uma prova que do alto de seus 67 anos King não perde seu gingado. Seus medos, seus gostos, seus pensamentos nos maravilha com quanto ele consegue ser fiel a como uma menina de 12 anos em 2013 deveria ser.

Mas é Rose, a Cartola, que mostra que o antigo King, o mestre do terror, o criador de vilões aterrorizantes, continua vivo e muito bem. Ela é o lado negro do autor, que esperamos que nunca morra. Tanto Rose, quanto toda a ideia do Verdadeiro Nó, são King em sua essência, porque nenhuma outra mente conseguiria pensar em um grupo de vampiros que se alimentam de crianças sobrenaturais, sem nenhum remorso e com requintes de crueldade. Só mesmo o criador do Pennywise.

Doutor Sono despertou sentimentos conflitantes em mim, reconheço que foi porque “O Iluminado” é um dos meus livros favoritos entre todos os que já li. É sombrio, pesado, com personagens fortes, sofridos, cheios de ressentimentos. Um romance gótico moderno em sua melhor definição e totalmente compreensível porque foi o que tornou King um dos maiores autores do gênero, de sua geração, se não o maior. A sua continuação começa pesada, carregada ainda daquele ressentimento antigo. Mas então ele se redime, Dan encontra uma luz no fim de seu túnel e entende que precisa usar o seu dom de uma forma positiva.

Achei que sentiria falta de Jack Torrance e toda a sua raiva, mas King criou Rose, uma mulher com a mesma ira e até mais cruel, porque Rose não se ressente, ela quer sobreviver e acredita que sua raça é muito mais antiga e importante que a que habita o planeta.

E aí ele nos deu Abra, a simpática garota iluminada, que pega na mão de Danny e mostra por qual caminho seguir. Que ao contrário daquele Danny pequeno e assustado, Abra é bem esperta e sabe muito bem como se defender.

A redenção de King me incomodou no início, mas então entendi: Ele precisava disso, ele precisava pedir desculpa a seu antigo eu por tudo que havia passado, e foi na forma de Danny que ele encontrou como o fazer. Dan Torrance é o novo King, aquele que lutou para continuar sem as drogas, para brilhar sóbrio, para enfrentar os obstáculos e provar que ainda consegue ser tão brilhante quanto há 37 anos. Doutor Sono não é marcante apenas por ser a continuação de “O Iluminado”, é também a volta de King a antiga forma, o início de um novo ciclo, o capítulo seguinte de uma grande história de superação.

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