Filha da Fortuna

Publicado pela primeira vez no Brasil em 2001, Filha da Fortuna ganhou esse ano uma nova edição nas mãos da Bertrand Brasil. O sétimo romance da chilena Isabel Allende segue a trajetória de Eliza Sommers, uma órfã criada por uma família inglesa no Chile em meados do século XIX que foge de casa para procurar o namorado na Califórnia durante a corrida do ouro. Posteriormente a autora escreveu a sequência Retrato em Sépia, que conta a história da neta de Eliza.

O romance pode ser lido como um tradicional coming-of-age, sendo norteado pela busca por auto-conhecimento da protagonista, mesmo que inicialmente ela venha mascarada como busca pelo interesse amoroso. Nesse aspecto o livro vai muito bem e mostra uma bela jornada de auto-descoberta e amizade, mas infelizmente no final introduz um interesse romântico desnecessário.

O título pode ser interpretado tanto como uma referência à fortuna enquanto riqueza material quanto ao auto-conhecimento adquirido e à suposta liberdade do sonho americano. A temática da paixão é central, manifestando-se tanto no amor idealizado de Eliza que motiva sua jornada quanto na obsessão pela riqueza material que moveu tantas pessoas na febre do ouro. Esta por sua vez é ricamente mostrada em detalhes e anedotas históricas, de forma que fica evidente o árduo trabalho de pesquisa que a autora desenvolveu por 7 anos antes de escrever o livro.

Os personagens secundários são interessantes e por vezes muito mais delineados que a própria protagonista, que parece ser mais definida por sua jornada do que por sua personalidade. As histórias pessoais de cada um desses personagens não apenas enriquecem o retrato da época como também servem de denúncia sobre uma série de questões sociais presentes no século XIX e que ainda encontram eco nos dias atuais, tais como o machismo, a falta de liberdade e respeito à religião alheia, racismo contra chineses, negros e povos indígenas das Américas, etc.

É muito interessante a escolha da autora de incluir um personagem trans, porém essa representação se mostra problemática ao não respeitar o gênero do personagem ao se referir a ele durante a narração. É possível que isso se deva ao fato de o livro ter sido publicado em 1998, quando provavelmente ainda não havia uma discussão tão ampla sobre identidade de gênero e transexualidade, porém causa incômodo no leitor do século XIX.

A prosa é simples e direta, sem floreios desnecessários, mostrando uma clara prioridade do conteúdo sobre a forma. Há um excelente trabalho de ambientação. A narrativa é cativante sobretudo no início, porém aos poucos perde o ritmo e o final se arrasta, encerrando com questões em aberto (que talvez sejam abordadas na continuação) e dando conclusão a outras que poderiam ter sido deixadas para a imaginação do leitor. No geral, é um bom romance mas definitivamente não é o melhor que Isabel Allende pode oferecer.

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