Prêmio Hugo 2019

Domingo foi dia de premiação para os melhores do ano no voto popular na Convenção Mundial de Ficção Científica, em Dublin, República da Irlanda. Algumas supresas, outras confirmações, discursos políticos, um predomínio (merecido) das mulheres, e acima de tudo muita diversidade, comprovando a evolução e a abrangência que o gênero fantástico tem hoje em dia.

Jeannette Ng (foto: Zen Cho/Twitter)

A noite começou com um discurso político fortíssimo. Jeannette Ng, britânica nascida em Hong Kong, ganhou o prêmio John W. Campbell de melhor escritora nova, e não aliviou pro editor/escritor que dá nome ao prêmio: chamou Campbell de fascista e racista, e o acusou de promover uma visão colonialista de um mundo dominado por homens brancos. Não está errada, mas Campbell também fez muito para elevar a qualidade da Ficção Científica depois que assumiu a direção da revista Astounding Stories (mais tarde Analog) em 1937. Assunto pra falar mais a fundo em breve.

Outro prêmio que na verdade não é um Hugo, mas é apresentado na mesma cerimônia, é o Prêmio Lodestar de ficção jovem adulta. Que este ano foi pra outro livro que fez sucesso aqui no Cheiro de Livro, Filhos de Sangue e Osso, de Tomi Adeyemi.

Os prêmios de melhor Fanzine e Podcast foram respectivamente para Lady Business e Our Opinions Are Correct, mais um sinal de como as mulheres estão à frente da FC atual. 

Elsa Sjunneson-Henry (esq) e Michi Trota, da Uncanny (foto: Marek Pawelec)

Um prêmio que me deixou especialmente feliz foi o de Semiprozine (algo entre um fanzine e uma revista profissional; é para revistas que pagam os escritores mas que têm tiragem pequena, e muitas vezes distribuição gratuita). Mais uma vez foi pra Uncanny, a minha preferida, mas este ano com um motivo a mais: eles publicaram uma edição especial dedicada a pessoas com deficiência, tanto autores quanto temas: Disabled People Destroy Science Fiction. Fico feliz de ter contribuído na campanha de financiamento coletivo da revista e assim de ter participado mesmo um pouquinho que seja. Uma das editoras, Elsa Sjunneson-Henry, parcialmente cega e surda, subiu ao palco com o cão-guia, num dos momentos mais emocionantes da noite.

Uma das grandes surpresas, mas que foi aplaudidíssima pelos fãs, foi a categoria Trabalho Relacionado, geralmente dedicada a livros de não-ficção. Ganhou o projeto online Archive of Our Own, um grande banco de dados que reúne mais de cinco milhões de obras de fanfiction! Isso mesmo, são fãs preservando o trabalho de fãs.

Becky Chambers (foto: Twitter)

Melhor Série é uma categoria recente, com regras complicadas. Tem que ter pelo menos três volumes, com um deles publicado no ano em questão. Chega quase a ser um prêmio pelo conjunto da obra, mas acho que sempre corre o risco de pender pra autores com muitos fãs, independentemente da qualidade. Se bem que até agora tem ficado em boas mãos: Lois McMaster Bujold ganhou por dois anos seguidos, e este ano foi a vez de Becky Chambers, pela série Wayfarers, outra que eu já resenhei aqui, e que é conhecida dos leitores brasileiros.

Chegamos então às categorias principais. Eu já tinha dito aqui que a disputa este ano estava equilibradíssima, e que em algumas categorias qualquer um dos indicados seria merecedor do prêmio. Alix E. Harrow ganhou o prêmio de Melhor Conto, com “A Witch’s Guide to Escape: A Practical Compendium of Portal Fantasies”, uma bela história sobre o poder que a literatura (principalmente a fantasia) tem de nos inspirar e dar força para superar as dificuldades do mundo real.

Zen Cho (foto: Marek Pawelec)

A Melhor Noveleta teve a votação mais apertada do ano: apenas 8 votos entre o primeiro e segundo lugar. A vencedora foi Zen Cho, escritora da Malásia radicada na Inglaterra, com “If at First You Don’t Succeed, Try, Try Again”. Não era a minha preferida. É uma bela história, só me pareceu a menos ousada das seis. Mas relendo agora rapidamente depois da premiação, gostei mais do que da primeira vez. E tem o mérito de trazer um pouco do folclore asiático. Um imugi (espécie de serpente mitológica) passa séculos tentando evoluir e se transformar num dragão. A transformação passa por questões de responsabilidade, amadurecimento, coexistência, respeito pelo próximo, perdão e sacrifício.

Wells: “Gostaria que a cédula tivesse a opção “Todas”.” (foto: Twitter)

A Melhor Novela foi pelo segundo ano consecutivo para Martha Wells, com “The Artificial Condition”, a segunda parte da série sobre um andróide que é um super-agente de segurança, mas que hackeia seu módulo limitador e passa a ter vontade própria. E que prefere muito mais ficar quieto/a assistindo a séries do que gastar seu tempo tirando humanos de enrascadas. Com muita ação ao mesmo tempo em que discute o que é ser humano, tem um romance prometido pro ano que vem e podia facilmente virar um seriado.

Epps e Kowal (foto: Marek Pawelec)

Na categoria principal, Melhor Romance, ganhou o esperado: “The Calculating Stars”, de Mary Robinette Kowal, resenhado aqui. Merecidíssimo. Kowal recebeu o prêmio das mãos de uma astronauta de verdade, a Dra. Jeanette Epps. Kowal também fez um discurso comovente. Lembrou as primeiras mulheres candidatas a astronautas e que foram “apagadas” da história oficial. E prometeu continuar a dar vez e voz a todos aqueles que são esquecidos, ignorados, deixados de lado.

A lista completa dos ganhadores está aqui.

Votaram este ano 3.097 leitores, entre eles o que vos fala. E se tudo der certo, da próxima vez estarei assistindo à cerimônia in loco. Partiu Nova Zelândia 2020!

2 comentários em “Prêmio Hugo 2019

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