Tantas Páginas Belas – Histórias da Portela

Adoro carnaval , não de brincar o carnaval, gosto dos desfiles, das escolas de samba e tudo o que envolve esse mundo. Tenho uma boa biblioteca sobre carnaval carioca e, por alguma dessas razões inexplicáveis, só uso como consulta. O único que realmente li foi “Maravilhosa e Soberana” pelo simples fato de falar da minha escola do coração, a Beija-Flor de Nilópolis. “Tantas Páginas Belas – Histórias da Portela”, de Luiz Antonio Simas, foi comprado logo no lançamento e ficou rodando pelas minha estantes sem ser lido. Quando vi o maravilhoso abre-alas da Portela no desfile do 2015, a águia redentora, vi que estava mais do que na hora de ler as pouco mais de cem páginas do livro.

O que não falta a Portela é história e algumas páginas gloriosas são retratadas no livro de Simas, não é uma leitura das mais envolventes, começa bem chata contando a história do bairro de Oswaldo Cruz, depois melhora um pouco, mas falta um certo ritmo. O que realmente sustenta do livro é a Portela, sua história é a história da formação da festa popular que caracteriza o nosso país, que está ligada a imagem da minha cidade. A escola nasceu como Vai Como Pode, o nome foi mudado para a Portela porque era a rua onde a sede da escola se localizava e o delegado que foi registrar a agremiação não gostou do nome original. A ave, originalmente, era um Condor por ser o pássaro que voa mais alto, mas acabou sendo mudado pelo tão famosa águia. Fundador da azul e branco de Oswaldo Cruz, Paulo da Portela é responsável pela organização das escolas de samba e a retirada das mesma da margem da sociedade. Paulo é também um dos muitos, que ao longo da história, deixou a escola brigado, ainda na década de 1940.

A Portela é a maior vencedora do carnaval, tem 21 títulos, e é a única heptacampeã (1941 a 1947). Foi nela também que a contravenção, mais especificamente o jogo do bicho, começou a se misturar com as escolas de samba. Natal, bicheiro de Madureira e Oswaldo Cruz, reinou na escola durante anos. É bem verdade que ele era da Portela antes de ser bicheiro, mesmo assim ele é a figura que vai implementar a figura do patrono que manda e desmanda, que coloca dinheiro e faz tudo pela vitória. No livro são contados pelo menos dois casos em que Natal levou a escola ao título pela malandragem, ele deu um soco na cara de um policial durante a apuração antes que a escola fosse punida e criou uma confusão tão grande que a Portela acabou campeã, e uma no puro e simples suborno, ele mesmo admite que deu dinheiro e um carro aos jurados para levar um carnaval. Natal é o homem dos anos de ouro da Portela, com ele ela ganhou 19 carnavais, sem ele, levou só mais 2 e ambos em empates. A decadência da Portela é uma mistura de brigas políticas, na década de 1980 um grupo saiu para formar a GRES Tradição, e incapacidade de se adaptar aos novos tempos do carnaval.

Das quatro grandes escolas de samba do Rio (Mangueira, Portela, Império Serrano e Salgueiro) é a azul e branco de Oswaldo Cruz que sempre me encantou mais. Pode ser o fato de o pavilhão da Portela carregar as cores que já moram no meu coração (azul e branco) ou por ter escutado muito Paulinho da Viola, não sei dizer, só sei que a Portela sempre foi especial. Assisti muito desfile na Marquês de Sapucaí e ficava mais feliz quando a Portela desfilava no dia em que estava indo (ia sempre na noite da escola de Nilópolis). Meu carinho pela maior vencedora dos carnavais – são 21 títulos – aumentou no Carnaval de 2005. Nesse ano a Portela teve uma série de problemas com alegorias e acabou fechando a grade de início de desfile na  cara da velha guarda, por uma questão profissional, tive que assistir horas de baluartes do samba chorando, passando mal e incrédulos vendo a sua escola na avenida e sendo barrados na festa. Ver Monarco, Casquinha, Tia Surica, Tia Doca e tantos outros barrados em um desfile é um crime contra o carnaval . São imagens que ficaram marcadas na minha memória, é também o mais tenebroso ano da Portela, pior colocação de sua história.

Quando no desfile de 2015 vi a escola cantando um ótimo samba (Sou Carioca, sou de Madureira / A Tabajara levanta poeira / Pra essa festa maneira meu bem me chamou / Lá vem Portela, malandro o samba chegou), com um abre-alas daqueles, deixei meu coração de lado e torci para a Portela mesmo sabendo que o seu desfile tinha alguns problemas aos olhos dos quesitos técnicos que determinam a vitória. O quinto lugar foi tecnicamente justo mas me deu tristeza, a águia merece um título depois de mais de 30 anos de jejum, a Portela é grande demais para ser relegada ao papel de coadjuvante que vem desempenhando nas ultimas décadas. Ler esse livro te dá a dimensão da grandeza da escola, te dá vontade de torcer por ela, de vê-la, finalmente, ganhando um titulo na Marques de Sapucaí. quem sabe ano que vem?

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