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A Organização

Malu Gaspar é, junto com Fernando Barros e Silva e José Roberto de Toledo, responsável pelo meu vício incurável por podcasts. No dia seguinte ao episódio em que ela se despediu do Foro de Teresina peguei “A Organização – A Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo” para ler. O livro é um tijolo, mais de 600 paginas, e estava preparada para passar um bom tempo enredada pela Odebrecht. Eu tinha esquecido que quem conduz a narrativa é Malu Gaspar, alguém que transforma a ascensão e queda de uma empresa em um thriller que faz o leitor ler “só mais uma página” e quando se dá conta não há mais páginas e em dois dias 600 páginas tinham sido devoradas.

A relação promíscua entre empresas e governos é fruto de escândalos no Brasil desde sempre. A própria Odebrecht foi envolvida em diversos deles desde a ditadura militar e contados no livro. Governo de diversos matizes ideológicos beberam da mesma fonte de recursos e, em troca, a construtora baiana foi crescendo, superando crises, expandindo, crescendo até desmoronar durante a Operação Lava-Jato. Só isso já daria um livro reportagem e tanto, mas nas páginas seguimos também os conflitos familiares entre Emilio e Marcelo, pai e filho, segunda e terceira geração de Odebrechts que levaram a empreiteira ao auge e a sua destruição.

“A Organização” não é um livro onde não se saiba o que vai acontecer, nós estávamos aqui, vimos Marcelo Odebrecht ser preso, vimos o departamento de operações estruturadas ou, como ficou conhecido, o departamento de propina ser revelado pelos jornais, vimos as listas de apelidos de políticos que receberam dinheiro da empresa sendo revelados durante o auge da Operação Lava-Jato. Nesse sentido não há surpresas, nem lances sendo revelados, o que há é o relato dos acontecimentos e como eles foram vividos dentro da empresa, as reações, as ações que levaram até aquele momento e é tudo fascinante, revoltante e beira ao inacreditável.

Marcelo Odebrecht é o grande personagem do livro, são suas ações que nos conduzem pela década de apogeu da empresa e a sua derrocada. A sua postura de dono maior da verdade amparado pelos textos que seu avó Norberto escreveu mostra como a cultura da empresa era fundada na crença de que a ilegalidade é o único caminho possível e de que o governo deve a empresa recursos e benesses para que ela cresça. Infelizmente não parece ser a única empresa que tenha isso como filosofia.

É inacreditável que qualquer pessoa pudesse acreditar que centenas de milhões de dólares fossem pagos a políticos em diversos países da América Latina e África e que isso tivesse qualquer chance de não ser descoberto ou deixar rastro. A prepotência dos envolvidos, a desculpa, até mesmo nos depoimentos de delação premiada, de que o que faziam não era ilegal, é apenas como as coisas são é enervante. Mostra como uma elite empresarial vê o próprio país e com se considera acima de tudo já que sempre deu uma “ajuda” a classe política.

“A Organização” é desse livros obrigatórios para entendermos melhor como chegamos até aqui como país. É, também, um alerta, a Odebrecht se reergueu de outros escândalos, os personagens envolvidos em muitos deles ainda estão aí e, no ano em que a operação Lava-Jato foi extinta, é bom ficarmos atentos em como caminha o combate a corrupção. Tenho que dizer que, no “data-hoje”, não anda nada bem.

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