A carne da casa

Não havia mais nada que justificasse aquela casa, aqueles quartos e aquelas paredes ainda de pé; os encanamentos enferrujados apareciam aqui e ali como fraturas expostas em carnes ressecadas. Toda demolição era, também, um processo de soterramento. As memórias, os ossos, as pequenas lembranças que assombravam as paredes e as crianças e cavalos que haviam […]

jamais fomos humanos – parte 1

ensaio de uma dança não dançada; fragmentos sujos;   jamais fomos nem seríamos humanos – pré-introdu_accion 1 há algum tempo sem escrever. 2018 foi me roubando, como um parasita. primeiro o corpo, depois o chão e em seguida as palavras. cabelo, unhas e dentes, oh my! 2 Estou há algum tempo sem escrever, sem conseguir […]

Bailar com o Diablo

  Bailar com o Diablo     solidão é lava que cobre tudo amargura em minha boca sorri seus dentes de chumbo solidão palavra cavada no coração resignado e mudo no compasso da desilusão   desilusão, desilusão danço eu dança você na dança da solidão Dança da Solidão, Paulinho da Viola   Minhas avós costumam […]

Fantasmas – parte II

§ {sequência da primeira parte – leia aqui} §   O portão estava descascado e enferrujado. Ele segurou, sentindo a ferrugem nas palmas das mãos suadas, e empurrou até onde conseguiu; cruzou o breve jardim que o separava da porta principal. Não tem ninguém, você sabe. Ninguém veio. Tá tudo apagado e você pode ir […]

Fantasmas – parte 1

  “Volte para o eclipse, Jessie” 1 Os retornos estavam obstruídos com cones de concreto e o carro, seguindo pelas ruas vazias, avançava lento. A luz dos faróis iluminava o tapete de folhas secas e tudo aquilo era estranho, como num sonho, mas absolutamente real.             Não era essa a […]

Tenho tido pesadelos horríveis.

  Tenho tido pesadelos horríveis. Toda a noite, durante horas, caio em um mundo perverso habitado por truques da memória. Lá fora uma criança grita. É dia e o sol está incurável. Ela berra e não consigo levantar, chegar até a janela – “meu pé!”, ela grita, e talvez tenham sido os peixes. Ouço água […]

Drogarias

  As Drogarias   Com suas vitrines, luzes frias e ambientes brancos e assépticos, as drogarias contemporâneas oferecem essa ilusão de que a vida é ordenada, categorizada e especializada – cada coisa, cada malefício e cada caixa de cura têm seu lugar. Os corpos transitam ali com uma leveza insustentável, como fantasmas, e depois se […]

Fins de Mundos – I

    Acabar com o mundo não é, necessariamente, destruir o planeta ou a humanidade. O que chamamos de mundo (esse espaço simbólico e físico, comum e inacessível), das nossas experiências afetivas, sensuais, éticas e estéticas, também pode ser destruído para que novas formas e possibilidades – futuros – surjam. Habitar nas ruínas, ter cautela […]

Os olhos de um monstro

Os olhos de um monstro   “Conto de terror, mas o rosto é um conto de terror.” Era um monstro que espreitava durante as últimas horas da madrugada. Os olhos imensos, abertos ao lado das cortinas que oscilavam imperceptivelmente com o ar suave do ar-condicionado. Os olhos eram brancos, como tomados por uma névoa espessa […]

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