Outros jeitos de usar a boca

“qual é a maior lição que uma mulher pode aprender?
que desde o primeiro dia, ela sempre teve tudo o que precisa dentro de si mesma. foi o mundo que a convenceu que ela não tinha.”

Rupi Kaur

O livro “Outros jeitos de usar a boca” (Editora Planeta) está no topo da lista de mais vendidos faz um bom tempo. Por ser um livro de poemas, achei curioso o posicionamento dele e pensei em pesquisar razões para tal acontecimento. Mas antes de pesquisar, li o livro e entendi a razão.

Rupi Kaur é uma artista. Ela não só escreve e/ou ilustra, ela se expressa, ela transborda, ela não aceita os limites impostos a ela pelo machismo que, infelizmente, acompanha sua cultura (e não só a dela, né?). E nós, leitores, só temos a agradecer por isso. Seu primeiro livro “Outros jeitos de usar a boca” conta sua história de abuso, dor, problemas de lidar com o pai (a quem ela ama, mas que não consegue se relacionar com ela), ruptura e conquista de si mesma em quatro partes que, por meio de poemas curtos e ilustrados também por ela, compõem a narrativa.

Embora goste muito de vários poemas e poetas, sempre preferi contos e livros. Não é por falta de interesse, mas por falta de identificação, talvez? Sempre achei que poesia se prendia a métricas e, embora construir algo impactante com tantas regras seja um feito e tanto, nunca realmente me conquistou, salvo alguns específicos. Até agora.

Embora tenha lido a poesia da Amanda Lovelace (resenha do primeiro livro aqui e entrevista exclusiva aqui) antes da de Rupi Kaur – e talvez por isso tenha me identificado mais com a primeira -, o talento e impacto da segunda são inegáveis.

Em um momento na nossa atualidade no qual pessoas estão lendo cada vez menos, que essas poucas palavras consumidas sejam repletas de significados e força e sentimento. Que essas poucas frases façam as pessoas pararem para pensar, refletir, rever conceitos, atitudes e situações. Que esse livro curto deixe uma cicatriz, uma tatuagem na nossa alma, relembrando o quanto o poder da palavra é presente e não deve ser calado.

Os livros de Rupi Kaur são curtos, fáceis de ler e, aparentemente, não oferecem desafio para o leitor. Porque ler poesia também tem esse estigma: de ser um desafio, um teste a ser conquistado, uma prova. Não com Rupi (nem com Amanda, nesse caso). Não …. ambas são fáceis de ler, mas lidar com o impacto da leitura que é o verdadeiro desafio. E não deveria ser diferente.

Ler transformar e quando as palavras são poucas, mas arrepiam, incomodam, acalentam ou tudo isso ao mesmo tempo, é a prova de que o poeta conseguiu o que esperava. E a pessoa do outro lado da página se transformou em leitor. Porque leitor não é só quem lê muito, quem lê sempre. Leitor é quem, quando lê, se deixa transformar pelas palavras, pelas ideias. E ler Rupi Kaur é um caminho para isso acontecer.

Então, sejamos todos leitores e encontremos não somente outros jeitos de usar a boca, mas de usar as palavras que saem dela e/ou transbordam pela escrita.

O segundo livro de Rupi Kaur também está no topo das listas de mais vendidos e você encontra a resenha dele aqui.

 

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