Filme Saiu das páginas

West Side Story (2021)

Vamos começar pelo mais importante: eu adoro musicais, sejam no teatro ou nas telas. Eu sei que o mundo é dividido entre as pessoas que gostam de musicais e as que os acham extremamente irritantes, estou do lado dos que adoram, que sabem as musicas, que tem playlists dedicadas, que conhece os atores, os compositores, que assistem o Tony Awards e sabe quem são as pessoas que estão concorrendo e ganhando. Fiquei com um certo pé atrás quando vi que o Steven Spielberg estava fazendo um remake de “Amor, Sublime Amor”, um grande musical com uma adaptação cinematográfica questionável. Foi cm esse histórico que entrei no cinema (depois de 2 anos!) com o Rafael para assistir a “West Side Story” (quando pararam de criar tradução dos nomes dos filmes?).

Spielberg não atualizou o musical, tudo continua se passando no final dos anos 1950, e sim, ele tem a estrutura de musicais que durou em Hollywood até o final dos anos 1960, ou seja, é o tipo de musical em que as pessoas param do nada e começam a cantar e dançar como se tudo absolutamente normal. É diferente de musicais mais modernos como “Moulin Rouge” onde as musicas levam o filme adiante e que começar a cantar tem algum sentido além de simplesmente cantar. Manter tudo como antes, até as famosas e as, então, revolucionárias aéreas que abrem o filme de 1961 estão aqui. Aqui começam as diferenças e elas não favorecem muito essa nova versão.

Vamos começar com os acertos. O elenco é bem melhor selecionado, aqui temos pessoas que efetivamente sabem cantar e dançar. Rachel Zegler com Maria, David Alvarez como Bernardo, Mike Faist como Riff todos estão ótimos. Ansel Elgort é um melhor Tony do que Richard Beymer, mas continua sendo uma performance apagada, o mocinho principal, o Romeu desse Romeu e Julieta moderno, continua sendo completamente esquecível. Quem rouba o filme, alias o que também aconteceu em 1961, é Anita, vivida aqui por Ariana DeBose. Ela é a vida do filme, é a melhor performance, e corrige um problema desse musical, seja nos palcos ou nas telas, é uma mulher negra. A região de Nova York que é cenário para a história tinha uma população majoritariamente negra e DeBose finalmente reflete isso.

DeBose tinha uma função difícil ao ser escalada como Anita. Ela seria comparada com a lenda Rita Moreno que rouba a cena no primeiro filme e já tinha conquistado a plateia na Broadway. Rita está nessa versão do filme também. Ela é Valentina, personagem criado aqui para substituir o Doc da primeira versão. Rita está ótima, como sempre, e entre as muitas modificações feitas foi dada a ela uma das musicas mais famosas “Somewhere”. Rita continua valendo a ida ao cinema e mesmo a sua presença na tela não ofusca nem um pouquinho o brilho que DeBose trouxe para Anita.

Tendo assistido ao musical e sua versão cinematográfica, mesmo que há muitos anos, tenho alguma lembrança da estrutura da história e sei as letras das musicas. O roteirista Tony Kushner mudou cenas de lugar, musicas são cantadas por outras pessoas, a ordem dos acontecimentos foi levemente alterada e eu passei metade do filme com o incomodo de saber que tinham elementos fora do lugar e sem saber coloca-los na ordem certa. Uma sensação estranha que só se acalmou quando revi o filme original. Dentre as mudanças de Kushner três fazem o filme pior do que o original e , não tenho duvidas, foram colocadas para modernizar essa versão. Tony ser um ex-condenado que passou seu tempo na prisão revendo sua vida e agora quer modifica-la; os Jets serem “apenas” racistas e não uma gangue violenta que aterroriza do bairro e a cena no Cloister onde acontece o “casamento” de Maria e Tony.

Os Jets serem”apenas” xenófobos e racistas e Tony um ex-condenado trazem um problema para o enredo. Em um romance clássico cheio de estereótipos é necessário um bem e um mal, uma rivalidade em que o publico consiga se identificar e torcer por um dos lados. Os Jets são uma gangue que aterroriza o bairro, os Sharks são uma gangue de Porto Riquenhos que existe para proteger a sua comunidade imigrante. Kushner e Spielberg tentam fazer dos Jets exatamente o que a música “Gee, Officer Krupk” ironiza. Quer explicar aqueles jovens brancos e raivosos como uma mazela social e sem solução. Tony ser um ex-presidiário faz o mesmo nessa construção, ao invés de um jovem cheio de sonhos que começa a trabalhar porque quer sair da situação em que se encontra, visão que combina com a sua primeira música, a linda “Something’s Coming”, ele é alguém sofrido que busca uma saída. É nessa busca que a cena no Cloister, um “casamento” que originalmente é para ser uma grande brincadeira, dentro de uma loja de roupas, se torna uma cena solene, séria e bastante fora do tom, . Nenhuma das escolhas funciona ou se encaixa com as músicas que eles cantam em cena, fica tudo um pouco fora do tom.

“West Side Story” é um musical dos anos 1960 mesmo sendo feito em 2021, Spielberg conseguiu o que parecia impossível, fazer o filme de Robert Wise parecer melhor que realmente é. Para os amantes de musicais como eu se sai do cinema cantarolando as músicas e, não deixa de ser também, uma forma de homenagear o gênio Stephen Sondheim que perdemos esse ano. Suas letras resistem ao tempo e continua lindas.

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