As escritoras de nossas vidas

Não há a menor dúvida que os livros são a maior paixão de todos os colaboradores aqui do Cheiro de Livro. Dessa forma, são também uma grande influência em nossas vidas, com certeza cada um aqui tem um livro (ou livros) que marcou sua vida.

Como estamos em março, mês do Dia Internacional da Mulher, que a cada ano ganha força como época para se intensificar os debates sobre o papel da mulher na sociedade, através de contribuições expressivas. Carolina, Mariana, Frini, Iane e Raphaela decidiram dividir com os leitores quais são suas escritoras favoritas, como homenagem a essas mulheres incríveis.

 

Ruth Rocha, por Carolina Araujo Pinho:

O que dizer de Ruth Rocha? A escritora que me encantou quando criança com seus reizinhos e seus livros que falavam bem mais do que simplesmente o que está nas páginas. Credito as narrativas de Ruth o meu gosto pela leitura, lembro de correr para as estantes da Malasartes (livraria carioca dedicada a literatura infantil) em busca de seus livros, queria sempre uma história nova. Esse movimento, o de entrar em uma livraria e correr para as estantes, faço até hoje e tudo começou ali, criança em busca de Ruth Rocha.

É dela meu livro preferido, desses que indico a pessoas de todas as idades, Uma história de Rabos Presos é um desses livros que explica para a Carolina adulta o porquê do amor da Carolina criança por esses livros. A história, escrita no ano eleitoral de 1989, fala sobre poderosos corruptos e como ter rabo preso imobiliza e destrói o poder público. Nada mais atual, não é mesmo?

 

Jane Austen, por Mariana Fonseca:

É muito difícil falar apenas sobre uma autora que marcou a minha vida, mas acho que no fim das contas seria impossível não falar de Jane Austen. Nosso primeiro contato foi no início da minha adolescência, com uma edição caindo aos pedaços de Orgulho e Preconceito comprada num sebo. Na época pouco se falava em Austen aqui no Brasil fora do meio acadêmico e não era tão fácil encontrar seus romances nas livrarias. Foi paixão à primeira leitura e logo dei um jeito de achar e devorar seus outros livros. Ler a obra completa de Austen, infelizmente, acaba não sendo grande mérito para um leitor já que com sua morte prematura aos 41 anos ela nos deixou apenas seis romances completos: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, Persuasão e Abadia de Northanger.

Austen nasceu em 1775 em Steventon, na Inglaterra. Filha do pastor local, ela era a segunda mais nova de oito filhos. O pouco que sabemos sobre a vida de Austen vem de relatos dos que a rodeavam e das poucas cartas de sua autoria não destruídas por Cassandra, sua única irmã e melhor amiga. Assim como Cassandra, Austen nunca se casou, o que colocou as duas irmãs e a mãe em uma situação muito delicada, dependendo do amparo dos homens da família após a morte do pai. Em seus romances, marcados por críticas sociais e muita ironia, ela explora a dependência econômica das mulheres e o casamento como seu único meio de garantir uma posição social e financeira segura.

Austen é considerada a segunda escritora de língua inglesa mais importante depois de Shakespeare. Suas obras inspiraram direta ou indiretamente incontáveis produções – quase todo ano sai ao menos uma adaptação ou releitura nova de seus romances, seja na forma de livros, filmes, peças, minisséries de TV ou até webséries. A mais recente é a nova novela das seis da Globo, Orgulho e Paixão, inspirada principalmente por Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Emma e Abadia de Northanger.

 

Carina Rissi, por Frini Georgakopoulos:

Minha homenagem literária para o Dia Internacional da Mulher vai para a minha girl crush, Carina Rissi. Carina mora com a família no interior de São Paulo, morre de medo de avião, é tímida e um doce de pessoa. E se tudo isso não bastasse, acabou de ganhar um prêmio de recordista de sua editora – Record – ao ultrapassar 100 mil livros vendidos. No Brasil, esse número é gigante e mostra como a literatura romântica e de qualidade faz a diferença. Porque sim, Carina escreve romances e faz isso como ninguém. Seus heróis conquistam as leitoras em poucas páginas assim como o fazem com suas protagonistas, que têm fibra, opinião própria, valores, mas também defeitos. São estabanadas, sonhadoras, às vezes inseguras, às vezes atacadas. Carina escreve a mulher brasileira em vários tempos diferentes e, por meio dos olhos delas, pares apaixonantes e histórias que apertam e afagam o nosso coração. Seus personagens refletem o sonho, o desejo, a vontade dos leitores – do que querem ser e do que querem para si. E isso, minha gente, é uma tarefa hercúlea, ainda mais sendo feito com tanto humor sem virar piadinha. Carina Rissi é um exemplo de autora contemporânea feminina que arrasta centenas de pessoas para seus lançamentos, continua a nos encantar livro após livro e mantém seu sorriso doce, sua personalidade íntegra. Carina é exemplo de autora e de mulher brasileira e que, em breve, vai ter suas histórias ganhando o cinema e a TV. Mas o céu é o limite para essa mulher que tanto admiro. Se você não a conhece, não perca tempo e se jogue na livraria mais próxima de você. Não vai se arrepender!

 

J. K. Rowling, Por Iane Filgueiras:

Quando eu conheci J. K. Rowling não fazia ideia do que era empoderamento feminino, ainda não lutava por direitos iguais, nem sabia que o “você não pode porque é menina” que eu tanto ouvia resignada, na verdade já eram as garras do machismo sobre mim. Eu só tinha 10 anos. Só esperava minha carta de Hogwarts.

Mas foi com J. K. e suas personagens fortes que eu aprendi que lugar de mulher é onde ela quiser. Que devemos lutar pelo nosso futuro, como Hermione Granger, que do nosso corpo nós temos o direito de fazer o que quiser, como Gina Weasley, que podemos ocupar posições de poder e exerce-lo com sabedoria, como McGonagall. Esportes, duelos, agricultura, música, cultura, ou mesmo cuidando dos filhos, lugar de mulher no universo Harry Potter sempre foi onde ela quiser. Enfrentaram adversidades sim, mas sempre com a cabeça erguida, saindo sempre vitoriosas.

Quando, já bem mais velha, descobri que Joanne Kathleen se transformou em J. K. por “sugestão” do editor, apreensivo que um nome feminino na capa não fosse vender muito, foi que eu entendi que o mundo real é bem mais cruel do que Draco Malfoy e companhia. E o pior: muitas vezes acabamos nos submetendo por falta de grandes opções.

Já mais velha, com outra cabeça, outro repertório, ao reler Harry Potter, percebi nuances que estavam ali o tempo todo, mas eu ainda não tinha a capacidade de ver: machismo, sexismo, preconceito, relacionamentos abusivos, discursos misóginos, violência doméstica. Tá tudo ali. Pra quem quisesse enxergar. Uma metáfora da crueldade do mundo real tão bem construída que é uma dor e uma delícia de se ler.

Hoje as garotas anseiam por bem mais do que eu esperava quando tinha dez anos. Muitas já não aceitam o “você não pode porque é menina” como argumento. Cada vez mais as jovens, inspiradas por outras mulheres de voz ativa, lutam por igualdade, respeito, dignidade, por sua posição no mundo.

Aprendemos com Joanne Kathleen que, infelizmente, o patriarcado não pode ser vencido com um agitar de varinhas, mas que juntas podemos ir mais longe.

 

Mary Shelley, por Raphaela Ximenes:

Sempre tive atração muito grande por histórias de terror, podiam ser em forma de filmes e livros. Só adulta que percebi que esse fascínio existe porque é através do terror que entramos mais em contato com nossa humanidade, da forma mais pura e crua.

O primeiro clássico de terror que li foi Drácula, muito nova, no início da adolescência, até que alguém me contou que Frankenstein era “mais assustador” e escrito por uma mulher. Consegui uma cópia e lembro que levei alguns meses para conseguir terminar, já que eu era muito nova e o livro muito denso para eu alcançar, na época. Acabei relendo já adulta, depois de descobrir toda a história por trás de como Frankenstein surgiu, e então começou minha verdadeira admiração por Mary Shelley.

Filha de uma mãe feminista, que não conheceu bem, e de um pai com ideias libertárias, o básico que se conta da vida de Shelley, nascida Mary Wollstonecraft Godwin, é centrado em escândalos e dúvidas sobre sua competência para escrever um dos mais famosos livros de terror gótico que existe. A verdade é que Mary sempre se interessou por política e filosofia, ajudando inclusive a editar os livros do marido Percy Shelley. Por anos, Mary era conhecida como esposa de Shelley e autora de Frankenstein, o que se sabe hoje em dia que ela era muito mais do que isso. A escritora é responsável por várias outras obras, entre romances, novelas, ensaios e até biografias.

Atualmente assumo que Mary Shelley tem uma grande influência em minha vida. Frankenstein é uma obra que mistura ciência e filosofia para construir um monstro que é mais humano do que os humanos do livro. Apenas uma mulher, em pleno Século XIX, pra entender e transmitir a angústia que é ser visto como algo diferente, porque a mulher, naquela época, era quase “inumana”.

Hoje, acho Drácula uma obra de seu tempo, já Frankenstein permanece atual, mesmo 200 anos depois. E essa é apenas uma das razões entre várias, pela qual Mary Shelley merece ser homenageada, hoje, em 2018.

 

Claro que é quase impossível escolher apenas uma autora em um mundo lotado de tantas mulheres incríveis. Assim, também convidamos vocês a dividirem conosco quais são suas autoras favoritas.

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